5 golpes na África carioca

Por Gabriel Siqueira

“Ofendem

São intolerantes

Marginalizam só pra variar

Dizendo favela é local suspeito

Por isso vou lhe revistar”

                                                                                                  Mr Catra, 1997

Estudantes protegem-se de tiroteio em escola no Complexo da Maré
Estudantes protegem-se de tiroteio em escola no Complexo da Maré

Há dois anos o Exército brasileiro, o braço forte, mas não se viu a mão amiga, iniciava uma ocupação territorial do Complexo da Maré. E não só lá. As Forças Armadas ocuparam e sitiaram muitos territórios negros da cidade do Rio de Janeiro. Isso que chamo de África carioca são as periferias, favelas, vilas, bairros e conjuntos predominantemente negros[1].

Ontem e anteontem mais cenas desta ocupação militar, seja exército ou PM. Continuamos sem Estado, sem Políticas Públicas. Continuamos reféns do fuzil nas mãos negras, vítimas das balas que perfuram corpos negros, uns com e muitos outros sem farda. De ambos os lados, morem pretos e pobres.

1. Ontem, no Morro do Borel, Complexo da Tijuca, outra vítima de uma “aparente” confusão da PMERJ que confundiu um saco de pipoca com uma trouxa de drogas. A única certeza que temos é que a história se repete; Um tiro na cabeça pra matar foi dado pelos policiais que, em seguida, deram mais dois para um beco qualquer com intuito de forjar um tiroteio. Prática constante, aliás, já está provado que os tiroteios e números de vítimas de violência nas favelas pacificadas aumentaram. Os autos de resistência aumentaram em mais de 90% no Rio de Janeiro[2].

2. Na maré, alguns tiroteios nas favelas do Parque União, Rubem Vaz, Nova Holanda e Baixa do Sapateiro. Uma agente comunitária baleada, e mais de 20 mil pessoas sitiadas em suas casas, escolas e procurando se esconder dos tiros.

3, 4 e 5. Três das principais unidades dos Restaurantes Populares (Central, Méier e Cidade de Deus) fecharão as portas a partir desta semana por falta de repasse de verba. E o preço do feijão? Mais um golpe, mais uma derrota da cidadania e do Estado de direito. Que as pretas, pretos e pobres comecem a pagar pela crise do PMDB com fome.

Por fim, estamos sofrendo golpes e mais golpes. Nas favelas, para o povo preto, nunca houve democracia. Os golpes nos acertam sempre, não importa de onde venha. A África Carioca tem mais morte que o Iraque, tem tanta fome quanto na África do outro lado do atlântico.

Chega de Golpes na África Carioca!

Axé e Luta para o nosso Povo!  

[1] O termo África carioca é uma inspiração que me atingiu através do livro ”Um abraço forte em Zumbi: pensamento e militância no front da Áfrika Carioka” do professor Carlos Nobre. Link: http://umabracoforteemzumbi.com.br/

[2] http://noticias.band.uol.com.br/cidades/rio/noticia/100000812789/autos-de-resist%C3%AAncia-aumentam-em-90,9.html

O show da Beyoncé e a conjuntura

Por Juliana Góes

No início desse mês Beyoncé fez uma apresentação no show de intervalo do Super Bowl (final do campeonato de futebol americano) homenageando os Panteras Negras e denunciando a violência policial. O preço desse show tem sido considerável para a cantora. Ameaçaram cancelar shows dela por causa do seu posicionamento político, marcaram ato na rua anti-Beyoncé, policiais estão boicotando o trabalho dela, etc. A esquerda se dividiu sobre o tema. Parte aponta para o fato da música apresentada no show do Super Bowl, Formation, defender o capitalismo, pois ela valoriza o consumo e o “ter dinheiro” (Beyoncé esfrega a sua riqueza na cara dos brancos), parte aponta para a importância do ato para fortalecimento da pauta antirracista.

Primeiro, é importante entender que negras e negros vivem em um mundo criado para brancos e brancas. O padrão de beleza é branco, só pessoas brancas são vistas como inteligentes e trabalhadoras, a TV é feita para gente branca, a universidade (ainda) é branca, etc. Nossas crianças já nascem sabendo que esse mundo não é para elas: dos personagens de desenhos e livros até a barbie, tudo é branco! A nossa necessidade de representação é real, é concreta.

Beyoncé, ao cantar contra o racismo, consegue captar essa necessidade. Sua performance permite que inúmeras pessoas negras se sintam um pouco mais representadas, além de chamar para o debate sobre o empoderamento negro e sobre as violências racistas. Lembro todas as vezes que escutei uma jovem preta chorando porque o cabelo é feio. Agora posso mostrar o show da Beyoncé e falar para a jovem que ela é linda, explicar o que é o racismo e falar da nossa história de luta. É mais uma referência que ganhei para mostrar negras fortes, poderosas, arrasando, e que nós podemos arrasar.

Isso significa que a música e o show são perfeitos? Não. Na música apresentada de fato o consumismo é exaltado, bem como o poder imposto pelo dinheiro. Quantas pretas poderão esfregar um Givenchy na cara dos racistas? Poucas… E mesmo se fossem muitas, será que é esfregando o fato de termos dinheiro na cara dos racistas que acabaremos com o racismo? O racismo e o capitalismo são faces da mesma moeda. Não poderemos acabar com o racismo, se também não falarmos de classe e acabarmos com o capitalismo. E o que isso significa para a nossa análise de conjuntura? Que temos uma necessidade real de mais mulheres negras no Congresso Nacional, na TV, na universidade, nas rádios, nos livros. Suprir essa necessidade de representação é muito importante para nosso empoderamento. Mas não podemos nos contentar em ter algumas representações e algumas pessoas negras ricas o suficiente para ostentarem. Não fazer recorte de classe é manter o sistema capitalista, o que significa manter a maior parte da negritude superexplorada. Nós precisamos voltar a acreditar no fim do capitalismo, precisamos resgatar o socialismo.

Por fim, quero falar para a esquerda branca. Você que faz vários argumentos racistas fingindo que são argumentos marxistas: para com isso. Beyoncé recebeu várias críticas da esquerda. Parte pela ausência de recorte de classe, que precisamos problematizar mesmo. Mas boa parte eram ataques racistas – era o fato dela ser uma mulher negra. Fidel perseguiu os terreiros e nem por isso vocês deixam de usar camisas dele. Ele não precisa ser perfeito, mas Beyoncé precisa? O capitalismo se sustenta no patriarcado, no racismo e no capital. E por isso, vocês atrapalham a revolução toda vez que abrem a boca e são racistas. Vocês se tornaram uma ameaça à revolução. Vocês são parte do motivo de várias negras não acreditarem no socialismo. Parem.

Quem te disse que a revolução é difícil, com certeza mentiu para você

Por Juliana Góes

Durante a minha vida eu tive a escolha de ser uma pessoa conformista, reformista ou revolucionária. A pessoa conformista é aquela que aceita, sem lutar contra, algo que a incomoda. Eu nasci mulher, preta, pobre. E por causa disso me deram um lugar na sociedade – o lugar de ficar calada, de apanhar calada, o lugar do corpo feito só para pegar, o lugar de mão-de-obra e carne mais barata do mercado. E muita gente acha que aceitar esse lugar é o mais fácil. Mas isso é mentira.

Se conformar, quando se vem de onde eu vim, é muito duro. É você ser explorada/o todos os dias. É ficar preocupado se tem o que comer, se tem como pagar o aluguel, se tem como vestir as crianças. É achar que não tem direito a ser amada. É odiar seu corpo. É ficar duas horas em um ônibus lotado, que nem lata de sardinha, em pé, para chegar no trabalho. E saber que será o mesmo esquema para voltar. E é saber que será assim para sua vida inteira.

Eu não ia sobreviver daquele jeito. Eu tinha que conseguir sair desse lugar social. Enfim, troquei o tempo em que as pessoas privilegiadas costumam ser crianças e cresci. Rapidamente entrei no mercado de trabalho e enfiei a cara nos estudos tentando criar minhas oportunidades. Mas o que me explora, não explora só a mim, e sim a toda coletividade que eu pertenço. Eu podia trabalhar 24 horas por dia, ainda seria explorada. Eu poderia até ganhar dinheiro, continuaria sendo chamada de macaca, continuaria vendendo minha mão-de-obra barata para que outro ficasse rico, continuaria com medo de ser estuprada. Sozinha é quase impossível sair desse lugar de opressão. Isso precisa ser feito coletivamente.

Assim, tentei reformar o sistema. Lutei pela educação, pela saúde, pela transferência de renda, pela democracia participativa. Imaginei que políticas públicas poderiam resolver os problemas estruturais da sociedade. Cheguei a ver alguns resultados, mas a gente não consegue atingir a todas e todos. E é muito difícil descobrir que um amigo seu está “desaparecido” (levado em camburão, morto por policiais). É muito difícil descobrir que sua prima sofreu racismo na escola e vê-la triste com isso. É muito difícil saber que várias crianças do seu bairro vão virar estatística, e morrer antes dos 21 anos. Ser reformista não é nada fácil. Eu descobri que não ia sobreviver assim.

Então, me tornei revolucionária. Desisti de tentar reformar o sistema e hoje luto para acabar completamente com o capitalismo e suas bases. E por isso, vejo que as lutas não podem ser tratadas separadamente. Como aprendi com a Audre Lorde e com o feminismo negro interseccional: “Eu não posso me dar ao luxo de lutar por uma forma de opressão apenas. Não posso me permitir acreditar que ser livre de intolerância é um direito de um grupo particular. E eu não posso tomar a liberdade de escolher entre as frontes nas quais devo batalhar contra essas forças de discriminação”. Isso porque luto por um mundo para todas e todos. Eu luto pelo comunismo.

E não vou dizer que é fácil. Tem seus altos e baixos. Mas com certeza, é muito mais fácil do que me conformar em ser explorada pela vida inteira ou lutar por reformas insuficientes. E quando vejo estudantes de SP preferindo ocuparem as escolas do que ficarem sem elas, ou as mulheres negras colocando a cara a tapa diante de fascistas armados na Esplanada ao invés de aguentarem o racismo caladas, tenho certeza disso. E se alguém te disse que a revolução era impossível, essa pessoa mentiu para você. Provavelmente para que você continuasse a viver como conformada/o. Mas não caia nesse papo. A revolução, ser revolucionária, sair do lugar de opressão é muito melhor do que permanecer nele.

Por que a PEC 215 não é só Papo de Índio

Por Marcela Vecchione e Julianna Malerba

Desde outubro, o Projeto de Emenda Constitucional 215 (PEC 215/00), voltou à ordem do dia na Comissão Especial dedicada a avaliá-la na Câmara dos Deputados. Seu propósito central é transferir para o Congresso Nacional a competência de aprovar a demarcação das terras indígenas, criação de unidades de conservação e titulação de terras quilombolas, que são constitucionalmente de responsabilidade do poder Executivo. Em outubro, a votação da PEC voltou à berlinda e foi aprovada pela Comissão.

Depois de negociação com o Executivo, o relator Osmar Serraglio (PMDB-PR) incluiu alterações quanto ao processo de tramitação dos processos demarcatórios: o governo deixaria de realizar as demarcações e deveria enviá-las ao Congresso como um Projeto de Lei que terá uma tramitação semelhante a das Medidas Provisórias. A despeito do argumento do relator de que essa medida garantiria celeridade à votação, a transferência para o Legislativo dos processos demarcatórios fere a separação dos poderes da União e os direitos coletivos dos povos indígenas ao submetê-los ao crivo de um Congresso, cuja composição desde sempre é desfavorável aos direitos dos povos indígenas. Como dito por Climério Anacé “A guerra contra a História Viva desse país vai se intensificar”, com impacto, sem dúvida, negativo sobre a questão agrária brasileira.

Os índios foram atores presentes, atuantes e fundamentais no processo da Assembléia Constituinte, iniciada em 1986, na luta pela democratização da terra. Em aliança com um campesinato que afirmava a diversidade de suas identidades e a convergência de suas agendas em defesa da reforma agrária, os povos indígenas tiveram um papel ativo na afirmação da importância dessa pauta no Brasil. Suas lutas se articularam às lutas de dezenas de populações tradicionais – do campo e das florestas – que reivindicavam políticas de reforma agrária que reconhecessem o papel que historicamente essas populações vêm cumprindo na promoção da sociobiodiversidade e, portanto, na conservação dos nossos ecossistemas. A mensagem era que sem a proteção de seus territórios não haveria futuro e lugar para um conjunto de cidadãos, cujos direitos tinham sido sempre negados, na democracia que se restaurava. A PEC 215, neste sentido, caminha em direção oposta ao avanço trilhado contra o racismo, o patrimonialismo e os privilégios de classe. Por isso mesmo, é a PEC da negação dos direitos coletivos, do assalto à diversidade e da história de nossa formação social. É, sem dúvidas, a PEC do retrocesso.

O argumento de que ela contribuirá para diminuir os conflitos no campo é no mínimo cínico, uma vez que sua proposição vem dos setores que têm investido violentamente contra os índios, os direitos territoriais e o uso coletivo da terra. Uma evidência é a própria obstrução da presença de lideranças indígenas e quilombolas na votação que, proibidas de entrar no plenário onde ocorria o debate, tiveram de protestar nos corredores da “casa do povo”.

Excluídos do processo democrático, só tem restado aos índios bloquear rodovias, frear o transporte da soja e de outros produtos sujos de sangue e reforçar a campanha de boicote aos produtos vindos do MS, onde impera o genocídio e o racismo institucional. A tentativa de bloquear o cotidiano que atropela suas vidas nos diz que a votação dessa PEC não tem a ver somente com o interesse dos índios. Impedir sua aprovação tem a ver com a necessidade de frear a expansão de uma política obscura que legaliza a destituição de direitos. Tem a ver ainda com a possibilidade de frear o avanço irrestrito das fronteiras econômicas sobre bens comuns. Tem, portanto, a ver com a democracia.

Como a luta de classe desacompanhada do combate ao racismo é fraca

Por Juliana Góes

No texto anterior, apontei para o fato das manifestações “Fora PT” serem fortemente meritocráticas e que essa ideia tem sido um dos pilares do avanço da direita no Brasil. Neste texto, vou destacar como, no fundo, este é um problema de desigualdade racial.

Os conservadores já compraram o discurso de igualdade social. A direita não questiona que é preciso dar dignidade à classe trabalhadora ou que é preciso combater a pobreza. Isso é, inclusive, um dos motivos para que sejam defendidas políticas econômicas liberais. Para a direita, elas seriam as únicas eficientes para resolver a crise. E como esta afeta principalmente o/a trabalhador/a, defender políticas econômicas liberais seria defender a classe trabalhadora. Se essas políticas afetam os pobres ou os ricos, é tema para outro texto. O ponto aqui é que tanto se aceita a igualdade social que se usa dela para justificar ações a direita.

Já as políticas para promoção da igualdade racial, como as cotas, são rechaçadas. Isso porque existe solidariedade seletiva. Pessoas brancas conseguem ser solidárias com as demais brancas que compõem a classe trabalhadora. Contudo, pessoas negras não são vistas como trabalhadores. Se pretos e pretas são pobres, é porquê são vagabundos/as, preguiçosos/as, crackeiros/as, criminosos/as e por aí vai.  E isso é herança do racismo científico. O discurso de antigamente era de que negros e negras eram seres humanos inferiores. Eram menos ativos, relaxados, preguiçosos, ao contrário do branco. Por isso, era preciso educar a negritude para ela se tornar mais “como os brancos”. Esse discurso se repete hoje quando se fala em educar a “população pobre, burra e que vota na Dilma”, ou quando se defende que quem recebe bolsa família não trabalha. Se nega a realidade de que foi com base no suor da população negra que o Brasil se ergueu e ainda se ergue.

Assim, é o pensamento racista que sustenta a desigualdade social hoje. Vou mais além, a exploração da classe trabalhadora, inclusive, não é o fator chave da sustentação do capitalismo no Brasil. Esta exploração é resultado da crença de que pretos e pretas não merecem serem vistos seres humanos de mesmo nível. Como dito, para os brancos, a classe trabalhadora é branca. E explorar negros e negras não seria explorar os trabalhadores, e sim corrigir preguiçosos/as. Se nega que a base da classe trabalhadora é preta.

Me pergunto onde erramos, enquanto movimentos sociais e organizações políticas, para deixar esse conservadorismo chegar as ruas. E, quando entendi que na verdade deixamos o racismo dar as caras, entendi o erro. A esquerda branca sobrepujou a luta contra o capitalismo à luta contra o racismo. Se achou que era mais importante ler Marx do que Malcom X. É só lembrar que em 1945 o Partido Comunista Brasileiro foi contra pautas do movimento negro por achar que nossas reivindicações dividiam a classe trabalhadora e, por isso, impediam o avanço do socialismo. Se defendeu que o racismo e o patriarcado eram culpa do capitalismo. Porém, é o contrário.

No final do último texto perguntei como deter o avanço do conservadorismo. Acredito que a resposta é combater o problema pela raiz – e isso implica tornar a luta antirracista pauta principal de toda a esquerda. É preciso que negras e negros parem de ser silenciados pela esquerda branca, como foi antes. Enquanto isto não ocorrer, esta estará de mãos atadas. Assim, negras e negros, acredito, nós somos uma das forças centrais para mudar o cenário do país agora.

Humilhado pelo sistema.

Ou “Pernilongo invade DP e foi morto na hora que ia picar um menor”

Por Rodrigo Santaella

Há alguns dias, passou a circular pela internet­ – em especial grupos de whatsapp – um vídeo no qual um garoto negro, sem camisa, sentado diante de uma mesa e algemado nos pés, é agredido pelas costas (provavelmente por um policial) com um tapa na orelha. A legenda que acompanha o vídeo, em tom jocoso, diz: “pernilongo invade DP e foi morto na hora que ia picar um menor”. Em um momento no qual se discute tanto a violência, suas consequências e as possíveis soluções, por um lado, e no qual se fala tanto de ética, por outro, conversar sobre esse vídeo pode explicitar algumas características de nossa sociedade.

Há pelo menos três tipos de reação ao vídeo: alguns se chocaram ou se incomodaram imediatamente com a situação; outros ficaram indiferentes; e outros riram, acharam engraçado e compartilharam o vídeo, seja como piada ou “exemplo de como tratar os bandidos”. Quero apontar algumas conclusões para dialogar justamente com os dois últimos grupos.

A primeira conclusão, quase óbvia (mas por aqui é sempre necessário dizer o óbvio), é de que há uma carga enorme de racismo e ódio de classe implícita no vídeo e em quem o compartilha. Trata-se de mais um negro, algemado, tomando um safanão de um braço branco e pelas costas. Mais um negro sendo humilhado pelo sistema e causando o estranhamento de poucas pessoas. As pessoas que compartilharam o vídeo encarando-o como piada ou como exemplo têm como único dado objetivo sobre o garoto o fato de ele ser negro, provavelmente pobre, e estar aparentemente em uma delegacia: ora, negro, sem camisa e em uma delegacia, só pode realmente merecer a porrada, não? Racismo puro e elementar. A juventude negra e pobre desse país é humilhada cotidianamente pelo Estado, em especial seu braço policial. Um tapa na cabeça e pelas costas é a ponta de um enorme iceberg de espancamentos, assassinatos, de humilhação cotidiana que não aparece nos vídeos, mas distorcida e diluída em estatísticas cotidianas sobre a violência no país.

Outra conclusão importante e derivada da anterior: não tem nenhum sentido dizer que não existe punição para os adolescentes em conflito com a lei no Brasil. Na medida em que o ECA nunca foi efetivado como deveria, as unidades socioeducativas são como pequenas cadeias, e funcionam sob a mesma lógica de humilhação e violência. A redução da maioridade penal está em vigor no Brasil, na prática, desde sempre. Não precisa ser nenhum expert para perceber que esse tipo de tratamento não aporta em absolutamente nada para a resolução de nenhum de nossos problemas: oferecer mais safanões, encarceramento, humilhação e morte só aumenta a angústia, a raiva e a situação estrutural de falta de perspectivas para uma juventude que nunca teve a vida como oferta.

Por fim, falo diretamente com aqueles que compartilharam o vídeo. Em geral, o perfil é o mesmo dos que clamam por mais ética na política e que há alguns anos passaram a reclamar o tempo todo da corrupção. Ética tem a ver com princípios. Se a humilhação barata, o racismo e a criminalização da pobreza estão entre os princípios que compõem a sua ética, você não deveria abrir a sua boca ou mover os seus dedinhos no celular para questionar a ética de ninguém. E digo mais, muito provavelmente, o governo que você tanto critica tem como principal defeito ter cedido, em quase tudo, a uma ética da ordem, que serve mais aos interesses daqueles que dão os tapas pelas costas do que daqueles que os recebem, todos os dias.

O Brasil é racista… e você também.

Por Rodrigo Santaella

Somos um país racista. É totalmente inconcebível que ainda haja quem defenda que 1) não existe racismo no Brasil, 2) se existe, é uma coisa muito minoritária ou 3) existe, mas não é tão grave assim, é um problema secundário. Chega! Não é preciso ser nenhum estudioso do tema ou um grande conhecedor para perceber e admitir que não só existe racismo no Brasil como ele é estruturante da sociedade. Grande parte de nossos costumes, das nossas piadas, da nossa cultura, das opções do nosso Estado e das nossas decisões cotidianas são permeadas pelo racismo. Somos forjados na mácula da escravidão, que nos impõe padrões diversos até hoje.

O caso, muito discutido nos últimos dias, do professor norte-americano Carl Hart que ia dar uma palestra em um hotel em São Paulo e foi barrado é só uma pequena ilustração disso. Muito mais emblemático é o número de negros assassinados cotidianamente pela polícia brasileira, seja agindo em nome da lei e justificando-se nos chamados autos de resistência, alegando sempre que foram atacados primeiro, seja agindo deliberadamente fora da lei, como na chacina ocorrida recentemente em Osasco e Barueri, na região da grande São Paulo. Muito mais emblemáticas são as condições de vida da maioria dos negros e das negras do país, difíceis material e simbolicamente. Não à toa, Amarildo era negro. Não à toa, Adílio dos Santos, atropelado por um trem no mês passado no Rio de Janeiro, era negro. Não é à toa que muitos dos leitores desse texto – a maioria de classe média, e provavelmente branca, como eu – já atravessou a rua, fechou um vidro, ou pelo menos sentiu algum receio – mesmo que o tenha mantido sob controle, sem gerar nenhuma atitude concreta – ao passar perto de alguém negro na rua de uma grande cidade.

Pois bem, somos racistas. A esquerda, a direita, as classes populares e a classe trabalhadora. Para os que buscamos transformar a realidade, é preciso admitir isso todos os dias. É preciso entender que a única forma de ajudar a combater o racismo, no caso de nós, brancos, é aprender com a luta das negras e dos negros, compreendendo que somos sim racistas e buscar, a partir dessa compreensão, uma reconstrução cotidiana de nossa subjetividade. Não basta ser contra o racismo no programa: mesmo quando total e sinceramente convencidos de que o racismo é ruim e que devemos combatê-lo, é preciso perceber-se como parte do problema. Para a parte branca da esquerda que busca acabar com toda e qualquer forma de opressão, a missão é aprender a ouvir e aprender a aprender. Para além disso, construir alternativas concretas e materiais a todas as formas de exploração e opressão, tendo o papel estruturante do racismo em nossa sociedade sempre em mente.

Para combater algo que nos constitui culturalmente e que molda nossa subjetividade, o primeiro passo é admitir que somos parte disso. Para livrar-se dos condicionantes de uma formação social racista, como indivíduos brancos, precisamos estar abertos às coletividades negras. São elas, com todxs aquelxs que sofrem racismo organizadxs, que podem falar e compreender a questão com mais propriedade. É daí que devemos aprender, sob pena de reproduzirmos em nossas práticas o racismo com a mesma naturalidade que o combatemos em nosso discurso.

Atualização em 30/08/2015, 11:52:

O neurocientista Carl Hart esclareceu um pouco melhor o que aconteceu no Hotel. Seguem parte das palavras dele: “O que aconteceu foi que, assim que cheguei ao hotel, na quinta-feira, fui direto ao toalete. Quando saí, os organizadores do seminário vieram até mim para se desculpar por algo que teria acontecido assim que entrei no hotel. Segundo eles, um segurança iria me abordar porque eu não parecia pertencer ao lugar. Mas eu não presenciei nada disso, foi uma pessoa que me falou”. 

Isso não muda em nada o conteúdo do texto (até porque um segurança o iria abordar porque ele “não parecia pertencer ao lugar”), mas é importante esse esclarecimento sobre o caso específico. 

Carl Hart, professor norte-americano, especialista em política de drogas, que foi barrado no Hotel em que daria uma conferência em São Paulo.

O discurso da massa manipulável e as manifestações “Fora PT”

Por Juliana Góes

Nesse exato momento, eu estou ao lado da Avenida Paulista, no subsolo de um prédio. Tenho acompanhado as manifestações “Fora PT” já tem algum tempo. E como notícias muito bizarras chegavam até mim sobre como elas ocorriam em São Paulo, decidi vir aqui e ver, com os meus próprios olhos, o que estava acontecendo. E confesso que fiquei assustada.

Alguns poderiam alegar que é a quantidade de pessoas na rua que me assustou. Mas não é isto. A manifestação dos sem-teto em São Paulo, a Marcha das Margaridas, o ato do Tarifa Zero de Belo Horizonte em conjunto com a Assembleia Popular de BH, com a Rede Resiste Izidora e com o MPL, entre outros atos, mostram que a esquerda ainda tem um grande poder de mobilização. Ressalto, porém, que ela precisa ser bastante aprofundada, mas isto é tema para outro texto. O ponto aqui é que as manifestações “Fora PT” são televisionadas e as demais não, de forma que temos a impressão de que elas são as únicas que existem e gigantérrimas. O que me assusta é como a mistura do discurso racista e meritocrático permite que essas manifestações sejam usadas como trampolins políticos.

Xs manifestantes de hoje  possuem um perfil clássico.  Em geral, são homens e mulheres majoritariamente brancxs, com uma condição material de vida bem equilibrada, com a idade avançada (encontrar alguém com menos de trinta foi muito díficil) e com alta escolaridade (conversei com várias pessoas, todas com graduação ou pós-graduação). Nas conversas que tive com xs manifestantes, várixs se autoafirmavam como a parcela educada, consciente e politicamente informada da população. Elxs tentam salvar o Brasil da manipulação que partidos e grupos como o PT fazem. E quem são as pessoas manipuladas pela esquerda? São xs pobres, xs negrxs, aquelxs que ganham bolsa família, “que vendem o voto por pão e mortadela” (frase que ouvi ser dita no carro de som).

Os manifestantes da Paulista querem salvar o Brasil. E se entendem como os capazes disto. Afinal, não são a massa manipulada pelo PT.

De fato, as pessoas com quem conversei têm o desejo sincero de um Brasil melhor. A ideia do patriotismo vem justamente nessa hora: elas querem defender o país e por isso estão indo às ruas, participando politicamente e cumprindo o dever como cidadãs. O momento atual é entendido como propício para as mudanças: o Brasil tem acordado e ocupado as ruas.  Além disso, elas se aglomeram em torno de pautas comuns: fim da corrupção, saúde, educação, uma economia estável, qualidade de vida, etc. Porém não existe um projeto de sociedade que dê suporte às pautas.

O resultado da ausência de um projeto de sociedade bem construído é que xs manifestantes de hoje movem o barco, mas não possuem capacidade de definir qual o objetivo final dele. Com isso, vários grupos políticos os usam como trampolins para suas próprias pautas. Entre xs manifestantes, vi muitos decepcionados com o Aécio, com o Cunha, com o STF, com a política geral. Mas na hora de fazer falas no Congresso, a direita se coloca como representante “deste povo que está nas ruas”.

Então, surge a ironia. Lembra que falei que quem estava na rua se dizia como população consciente politicamente? Que iria salvar o Brasil da manipulação que o PT fazia com as massas? Pois é, de fato grupos políticos reacionários estão usando das “massas manipuláveis” na disputa política. Só que a “massa da classe média alta”. E, ao invés de se atentarem para isto, percebi nas falas uma preocupação muito maior em se diferenciar da população “manipulada pelo Bolsa Família”, burra, e que precisa ser salva.

Isso mostra, a meu ver, dois pontos. O primeiro é que ainda é possível tentar dialogar com a população que dá volume a estes atos. Como não há um projeto de sociedade definido, pode-se disputar a indignação que há na rua e tentar canalizá-la para uma curva à esquerda. Porém, e aqui entro no segundo ponto, isso implica combater fortemente o racismo e a meritocracia. O desafio agora é: como desconstruir isto em um cenário político onde ele se fortalece? As táticas atuais têm se mostrado ineficientes. Bom, essa pergunta é o que impulsionará o próximo texto.

F. B. H., de “menor infrator” a Chico Buarque

Por João Telésforo

Em comemoração aos 25 anos do Estatuto da Criança e do Adolescente

Em 1961, Chico Buarque já publicava crônicas no jornal de sua escola. Sua primeira aparição na imprensa, no entanto, naquele mesmo ano, deveu-se a outro tipo de arte: o “menor” “F. B. H.” e um amigo estrelaram matéria do jornal Última Hora sobre dois “pivetes” presos pela polícia. Chico narra a história no documentário abaixo (14min45s – 17min20s):

Os dois “jovens transviados” furtavam carros para dar seus rolezinhos por São Paulo. Rodavam até acabar a gasolina, então abandonavam o veículo pela cidade. Até que, uma noite, foram pegos. Apanharam bastante da polícia, “apesar da cara da gente”, diz Chico – cara de adolescentes da elite paulistana e socialmente reconhecidos como brancos, subentende-se. Ao final, Chico foi punido com a proibição de sair de casa à noite desacompanhado de responsáveis até completar 18 anos de idade (faltavam cerca de seis meses).

O juiz – e talvez até, antes dele, o delegado – certamente levou em conta a natureza do ato, que pode ter sido corretamente enquadrado como “furto de uso” e, em consequência, desqualificado como crime, por não se configurar a vontade de tomar a coisa para si com ânimo definitivo, necessária à configuração do tipo penal de furto. Além disso, deve ter considerado fundamental que “F. B. H.” era um adolescente que não merecia mofar em uma cadeia ou instituição de internamento de “menores” devido a uma brincadeira de mau gosto. Haveria outras formas, mais justas e eficazes, de educá-lo para não repetir aquela conduta.

Que ótimo que foi esse o desfecho do caso – lamentável e inadmissível, óbvio, a violência da polícia. Menos de dois anos depois, em 1963, Chico iniciou o curso de Arquitetura na USP; em 1964, vieram os primeiros shows e a primeira canção gravada – a carreira explodiria no Festival de 1966. Já pensou se a vida daquele jovem tivesse sido interrompida, naquele momento decisivo, por um período de encarceramento? Será que ele teria conseguido as mesmas ou outras oportunidades para se realizar profissionalmente em sua vocação de artista?

Acontece que não só a família de Chico, mas o Estado e a sociedade brasileira tinham um projeto para ele, assim como para cada jovem das nossas classes privilegiadas. O país está montado para esses jovens “darem certo”. Quando cometem “deslizes”, “erros”, “desvios”, têm direito a novas oportunidades.

E se Chico Buarque não fosse filho de um eminente intelectual e professor da USP? Se não integrasse aquela pequena classe de brasileiros/as que gozamos do direito à cidadania efetiva? Se fosse um desses jovens pretos e pobres da periferia tratados como criminosos por darem rolezinhos em Shoppings, hoje em dia, sem cometerem qualquer tipo de crime ou contravenção?

Para estes, as vítimas tratadas como “classes perigosas”, o Brasil tem outro projeto: “E o que eles querem: mais um ‘pretinho’ na Febem”, cantam os Racionais Mc’s. Pra eles, não tem nem segunda nem primeira oportunidade, não tem aposta na educação; tem prisão, internação, repressão. Justiça como restauração? Vingança e escravidão.

Enquanto isso, a Pátria Educadora, distraída pela ameaça da redução da maioridade penal, foi subtraída ontem em mais uma tenebrosa transação. O Senado aprovou Projeto de José Serra, com apoio do governo Dilma, que desfigura o Estatuto da Criança e do Adolescente, aumentando de três para dez anos o tempo máximo de medidas socioeducativas de internação.

Chico FBH 2

PS: faz alguns meses, usaram o episódio “juventude transviada” de Chico Buarque para alegar que ele é contra a redução da maioridade penal porque seria um “bandido” desde a adolescência (!). A boçalidade não tem limites e convida sempre à perseguição, jamais à reflexão.

Reaja: 10 anos de luta negra e resistência comunitária

Por Lula Rocha

Há 10 anos guerreiras e guerreiros tomaram a decisão política de não mais aceitar passivamente a morte cotidiana e brutal de negras e negros nesse país. Da ocupação da Secretaria de Segurança Pública da Bahia surge a Campanha Reaja ou Será Morto, Reaja ou Será Morta ecoando as vozes negras de vilas, favelas e presídios e travando a luta autônoma e combativa contra o Genocídio do Povo Negro.

Apesar do racismo produzir secularmente dores e desigualdades, nunca havia gerado a pilha de corpos negros como hoje. O processo genocida em curso no Brasil que se manifesta não apenas por meio das milhares de mortes, mas também por diversas privações ao povo negro necessita de um combate a altura protagonizado por negras e negros.

Em tempo de cooptação, distanciamento das lutas populares e institucionalização da militância, a Reaja desafia aqueles que acreditam que a luta social prioritariamente se faz em gabinetes e com negociatas. Seja em Periperi, Vila Moséis, Simões Filho, dentre outros territórios, a Reaja segue firme no combate ao racismo e na construção de um processo de resistência forjado pelos de baixo. Nas marchas, nas ações comunitárias e culturais a Reaja mantém viva a luta dos nossos ancestrais e aponta saídas concretas para construção de uma sociedade mais justa.

Entretanto, toda essa luta ainda é invisibilizada, incompreendida ou combatida por alguns. São constantes os ataques a Campanha Reaja não só pelos declaradamente racistas, mas também por setores dos movimentos sociais. Mas isso não limita a caminhada. Pelo contrário, a Reaja se fortalece a cada tentativa de desqualificação ou intimidação, pois seus princípios e propósitos estão estão cada vez mais consolidados e atuais.

Por isso, temos na Reaja o farol da nossa atuação. A luta contra o racismo requer radicalidade, ousadia, criatividade, coerência e compromisso. Em tempo de atualizações e reflexões sobre o caminho a seguir para se contrapor a elite branca brasileira e suas artimanhas para manutenção do poder, a Reaja é uma referência para os que ainda acreditam numa transformação real da sociedade.

Vida longa a Reaja!