A tradição do golpe: do Brasil ao Paraguai

Por Alery Correa *em colaboração especial para o Brasil em 5 (participe também enviando seus textos aqui)

Foi no ano de 1962 que a interferência norte americana em assuntos políticos brasileiros extrapolou todos os limites considerados “normais”, mesmo para a época. Se antes o modus operandis yankee era a perpetração habitual de sua propaganda ideológica em qualquer país do globo, no ano de 1962, quando das eleições parlamentares brasileiras, o próprio Lincoln Gordon, embaixador americano no Brasil, afirmou terem sido gastos mais de cinco milhões de dólares a fim de garantir a eleição dos candidatos favoráveis à agenda dos interesses norte-americanos. Apenas um dia depois das eleições, o presidente John Kennedy teria enviado ao Brasil a chamada missão Draper, integrada por representantes do departamento de defesa dos EUA e de agências como a CIA, USAID e USIS. O objetivo do grupo era proceder na análise do resultado das eleições, que foram desfavoráveis aos opositores de Goulart. A missão Draper acabou por concluir que o Brasil deveria ser tratado com máximo rigor no plano, e, foi após ela, que Kennedy decidiu intensificar suas pressões sobre Goulart.

A campanha de desestabilização do governo Goulart mais tarde evoluiria para o planejamento de um possível golpe.  Foi em 1963 que os chamados “planos de contingência” começaram a ser desenhados, com a participação direta do já citado embaixador norte-americano no Brasil, visando antecipar a ação norte-americana aos desdobramentos políticos brasileiros, a fim de estabelecer linhas de ação e evitar quaisquer surpresas e improvisos. Conhecido como “Operação Brother Sam”, esse plano de contingência previa não só apoio logístico, mas também o fornecimento de armas e a realização de exercícios navais na costa brasileira, caso as forças legalistas oferecessem resistência ao golpe. O plano estipulava que a embaixada norte-americana agiria clandestinamente, estabelecendo contatos com grupos conspiradores brasileiros, exercendo influência sobre eles e trocando informações. Por fim, o plano estabelecia que os militares brasileiros seriam a única força nacional capaz de alterar o regime conforme as necessidades norte-americanas. Não por acaso, os interesses dos EUA convergiram diretamente com os de grupos reacionários brasileiros, que visavam barrar as reformas de bases propostas por João Goulart. O resultado disso nós já conhecemos. Na madrugada de 31 de março de 1964, tropas golpistas marcharam em direção ao Rio de Janeiro, onde se encontrava o presidente Goulart. O senador Auro de Moura Andrade imediatamente declarou vaga a presidência da república. Não houve resistência, apesar da insistência de figuras como Leonel Brizola nesse sentido. Alguns dizem que Goulart já tinha conhecimento do plano de contingência preparado pelos EUA e, assim, optou por proceder ao exílio. E o Brasil seguiu para um mergulho de mais de duas décadas no abismo profundo e escuro dos porões da tortura, dos assassinatos, estupros, da corrupção e da mais completa ausência de direitos.

Não faz muito tempo, os EUA atacaram novamente a soberania de um país latino-americano, contribuindo de forma direta para a derrubada de um governo legítimo. O golpe de Estado contra Fernando Lugo, presidente paraguaio, começou a ser orquestrado em 2008, mesmo ano de sua eleição, a qual colocou fim ao reinado de 60 anos do partido Colorado, mesmo partido do antigo ditador Afredo Stroessner. Entretanto, o fim do governo Lugo não foi um raio no céu azul. Para chegar a essa conclusão, bastava observar os editoriais da imprensa paraguaia nos quatro anos anteriores ao golpe, todos eles favoráveis ao chamado “juízo político”, versão paraguaia do nosso impeachment. Representante da teologia da libertação, Lugo era conhecido como “Bispo dos pobres” antes de entrar para vida política. Trabalhava diretamente com movimentos de camponeses e sem terra. Mesmo após eleito, manteve suas convicções progressistas, que criticavam a concentração de riquezas e terra.

Uma sucessão de escândalos políticos envolvendo Lugo, incluindo o fato de que ele teria tido três filhos na época em que era sacerdote, forneceram material farto à imprensa paraguaia e contribuíram para desgastar a imagem do presidente. Além disso, o vice-presidente, Frederico Franco, falava abertamente de sua ambição de ocupar o cargo. Mesmo assim, Lugo procedia com seu programa de governo, procurando estabelecer a universalização do sistema de saúde e limitar o uso de agrotóxicos , comprando briga direta com o setor agroexportador.  A embaixadora norte-americana no Paraguai, Liliana Ayalde, acompanhava tudo de perto, e enviou cerca de 15 comunicados à Washington, conforme informações vazadas pelo WikiLeaks. Em um país de tradição institucional fraca, como é o caso do Paraguai, a embaixada dos EUA se tornou uma espécie de centro de poder e local preferido dos opositores para discussões sobre o juízo político. Muitos desses opositores eram fotografados pela imprensa, aparentemente satisfeitos, após sair de reuniões na embaixada. “A interferência política é a norma”, a própria Ayalde escreveu para Washington, em telegrama também vazado pelo WikiLeaks, na época em que Lugo chegou ao poder no Paraguai. Ela tinha ainda deixado claro para Lugo, os benefícios de manter relações favoráveis com os EUA, conforme escreveu ao departamento de Estado norte-americano. O golpe veio em junho de 2012. Alguns meses antes, a embaixadora Ayalde já havia passado o cargo, pois foi promovida à responsável pelo Caribe, América Central e Cuba no departamento de Estado de Hillary Clinton.

A mesma Ayalde assumiu em agosto de 2013, sem muito alarde, a embaixada brasileira. Segundo a Missão Diplomática dos Estados Unidos no Brasil, “a embaixadora Liliana Ayalde vem ao Brasil com 30 anos de experiência no serviço diplomático”. Em um momento de intenso acirramento político e disputa de poder. O impeachment entra em pauta. A imprensa mais agressiva do que nunca. Não se tratasse de política, diríamos que foi mero acaso. Mas sabemos que não existe falta de pretensão quando se trata dos interesses norte-americanos. Na verdade, eles vêem crescer a oportunidade de colocar as mãos no pré-sal brasileiro e estão conscientes da chances reais que possuem com e sem o PT em cena. E certamente, todas as possibilidades já foram avaliadas pelo imperialismo norte-americano.

É mais um plano de contingência em ação. Mais um golpe em curso. Mais um capítulo da história da nossa frágil democracia brasileira sendo escrito por mãos estrangeiras. Só a mobilização do povo brasileiro, bem como de uma esquerda aguerrida e unida, pode evitar que a história se repita.

É tempo de reafirmar os valores democráticos, e aprofundá-los ainda mais. É tempo de demonstrar convicção e firmeza ideológica. E, sobretudo, é tempo de tomarmos a caneta de assalto e escrevermos nós mesmos a história.

“A certeza na frente, a história na mão”.

*Alery Correa é professora de História.

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Haverá socialismo nos EUA?

Por Mariana Prandini Assis

Durante inúmeras décadas, a pergunta “Por que não há socialismo nos Estados Unidos?” tirou o sono de historiadores e cientistas políticos de esquerda. Conta-se que até mesmo Marx e Engels se debruçaram algumas vezes sobre a questão, estarrecidos com o fato de que o país onde o capitalismo havia se desenvolvido mais desavergonhadamente mostrava-se terra infértil para a construção de uma alternativa revolucionária. O historiador Eric Foner, autor de uma interessante revisão sobre esse extenso debate, sugere que talvez o problema esteja na própria pergunta. Para ele, a pergunta se funda em uma interpretação da história que privilegia o socialismo no interior dos movimentos radicais, porque o vê como consequência inexorável do desenvolvimento capitalista. Ele propõe, assim, que se altere a pergunta para “por que não houve transformação socialista em qualquer sociedade capitalista avançada?”, rompendo-se com a ideia de ‘excepcionalismo estadunidense’ que subjaz a primeira formulação.

Esteja ou não Foner com a razão, o fato é que a gramática socialista está de volta ao mainstream da política estadunidense e talvez agora faça sentido nos perguntarmos não se houve, mas se haverá, de fato, socialismo por aquelas bandas do Norte. O candidato às primárias democratas Bernie Sanders, que até então havia concorrido a (e ganhado) outros cargos eletivos como independente, se auto-intitula um “socialista democrático” e vem conclamando o povo estadunidense a fazer uma “revolução política e pacífica”, através de um comparecimento massivo às urnas. Em seus discursos, Bernie tem adotado um firme discurso contrário os interesses do capital financeiro, ao estilo do Ocupe Wall Street. Uma de suas propostas consiste em uma ampla reforma de Wall Street, por meio da lei “se é muito grande para quebrar, então é muito grande para existir”[i], em referência aos grandes bancos que foram salvos na última crise financeira. A ideia é que nenhum banco pode ser grande demais que a sua quebra tenha um impacto tão desastroso para o sistema econômico. Além disso, Bernie propõe que se reverta, também pela via legislativa, a decisão Citizens United, da Suprema Corte, que permitiu o financiamento de campanhas eleitorais por pessoas jurídicas.

Inclusive, no quesito financiamento de campanha, as campanhas democratas de Hillary e Bernie de fato apresentam uma diferença fundamental em relação aos republicanos, e nos dão uma ideia de quais interesses se encontram por trás de quais candidaturas. 158 famílias, dentre as mais ricas dos Estados Unidos, são responsáveis pela doação de mais da metade (176 milhões de dólares contabilizados até junho) de todos os valores até agora gastos nas campanhas. A grande maioria delas se dedica aos negócios financeiros ou energéticos (petróleo e gás natural) e se encontra entre os chamadas self-made, imigrantes que chegaram aos EUA há, no máximo, uma geração e “fizeram” as próprias fortunas. Dessas, 138 doaram para candidatos republicanos, na esperança de verem implementada uma agenda rejeitada pela maioria do povo estadunidense[ii] de menos regulação, cortes nos tributos sobre renda, herança e dividendos, e redução dos programas sociais.

A campanha de Bernie, ao contrário, vem sendo sustentada por doações de pessoas físicas e isso a faz, de fato, diferente de todas as demais, e parece apontar, juntamente com as suas propostas no campo da imigração, políticas de bem-estar social, direitos das mulheres e comunidade LGBT, débito estudantil, justiça racial e guerras, para uma candidatura de fato alinhada à esquerda socialista democrática.

Mas há uma pedra no caminho de Bernie (que me parece ser, na verdade, o grande desafio da esquerda socialista mundial): o nacionalismo (ou imperialismo, nesse caso). O Partido Comunista se estabeleceu, nos anos 1930, como a maior força na esquerda estadunidense, e obteve maior sucesso justamente quando se apresentou como “americano”. Naquele contexto, o internacionalismo e a proximidade com a União Soviética eram vistos como anti-americanismo. Em Bernie, vê-se também a retórica nacionalista muito presente: na defesa do povo estadunidense, na promessa de que essa grande nação liderará o mundo na solução dos problemas ambientais, na recusa aos tratados de livre comércio porque destroem a economia nacional.

Se olhamos para as lutas anti-coloniais das décadas passadas, particularmente na Índia e na África, a retórica nacionalista foi fundamental em sua articulação e, ali, ela fazia sentido. Para romper uma relação de dependência e, em última instância, de dominação, era necessário afirmar o poder local e a força daqueles que ousavam se insurgir. Definitivamente, não é esse o caso dos EUA que, desde pelo menos a II Guerra Mundial, se coloca no contexto mundial como verdadeira potência imperial. Assim, para que haja socialismo lá, é necessário começar a questionar esse papel, e a dar sinais de que ele será abandonado. E isso, Bernie não parece disposto a fazer.feel the bern

[i] “If it is too big to fail it is too big to exist”.

[ii] Segundo pesquisas realizadas em junho pelo New York Times e CBS News, dois terços dos estadunidenses apoiam a cobrança de mais impostos daqueles que ganham um milhão ou mais por ano; e seis em cada dez pessoas apoiam uma maior intervenção do governo para reduzir o gap entre os mais ricos e os mais pobres. E ainda de acordo com o Pew Research Center, sete em cada dez pessoas são a favor dos benefícios sociais e médicos (Social Security e Medicare) hoje garantidos pelo estado.

Quando se fala da Grécia, tem uma receita: Não se esquecer da Alemanha

Por Helmut Weiss – em colaboração especial para o Brasil em 5

Então, a Grécia votou. A União Europeia deu a resposta: “E daí?” O que nos importa o voto de um povo, quando se trata de lucro? De agora em diante, até as decisões  do parlamento grego têm de ser validadas pela UE – o que a gente facilmente pode chamar de golpe. Não esquecendo que a Grécia foi o último pais da Europa onde aconteceu um golpe militar mesmo – em 1967; hoje no capitalismo moderno e decadente os golpes são diferentes, constitucionais, como, por exemplo, em Honduras e de certa maneira no Paraguai, menos na Grécia.

A primeira coisa que tem de ser criticada – e que chama resistência – é a atitude ditatorial da UE, a chantagem que organizaram para derrotar não um governo, e sim um movimento amplamente popular: chega de austeridade, chega de destruição de sistemas e relações sociais, chega de fome. Deste movimento, o governo eleito fora simplesmente um resultado, uma das suas expressões.

A segunda coisa: Syriza. Para falar a verdade, eu acho que com categorias como “traição” vai ser difícil de compreender o sucesso da chantagem. Por quê? Eu comparo um pouco com a eleição de Lula em 2002: nem Lula nem Tsipras foram eleitos para “fazer socialismo”. Em ambas as eleições  o setor que votou para mudar a sociedade era bem minoritário – votaram para melhorar a sociedade. O que não significa que não haja critérios básicos para avaliar um governo, além de distribuir as migalhas de um crescimento temporário ao povo. Mas, a tendência bem maioritária na Grécia era: fim da austeridade, sem sair do Euro. Complicado, então.

A terceira coisa: mostrou-se bem clara a relação de forças dentro da UE – a Alemanha está no mando, a França perdeu aquele papel de décadas, de ser um parceiro-rival à altura, da Inglaterra nem se fala, e a Itália então não tem voz. Me lembro muito bem das muitas vezes quando falávamos – no Brasil – da Alemanha: eu sempre tinha aquela impressão de que para os companheiros seria mais ou menos, “ah não, não é como os Estados Unidos”. E não é mesmo – é menor, com menos força: menos força imperialista. Só que já tem soldados em mais de 20 países – combatentes, e não, como no início da década 90, longe das linhas. Mudou isto também: não é mais o “invencível exército alemão” e sim é – na propaganda – alguma mistura entre Cruz Vermelha e Universidade Popular.

Finalmente, o povo grego vai pagar para quem? Privatizar os aeroportos? Aí está a Fraport, empresa que é dona do segundo maior aeroporto da Europa – Frankfurt. Duplicar o imposto? Aí está a rede Lidl, segunda maior da Alemanha, generosamente disposta a substituir, com os seus mercados gigantes, as pequenas lojas da vizinhança que na Grécia ainda tem – ou tinha. E poderia continuar…

Ainda bem que boa parte dos gregos e das gregas continua resistindo, inclusive organizando alternativas…

Colômbia: diálogos de paz

Por Pedro Otoni

Desde março de 2011, as FARC-EP (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia- Exército do Povo) vêm se empenhando na construção de um acordo de paz com o Governo de Juan Manoel Santos (atual presidente colombiano). Iniciativa que deu origem à Mesa de Negociações instalada em Havana (Cuba) em 2012, com a participação das partes beligerantes e dos governos de Cuba, Noruega, Chile e Venezuela. A Mesa é de grande significado, poderá solucionar um conflito social e político de meio século de existência.

As delegações do governo e da insurgência colombiana estabeleceram o Acordo Geral sobre os termos do Diálogo, são eles:

  1. Política de desenvolvimento agrário integral;
  2. Participação política;
  3. Fim do conflito;
  4. Solução para o problema das drogas ilícitas;
  5. Vítimas;
  6. Implementação, verificação e refendo.

Como é evidente, tal agenda de debates é complexa e o progresso das negociações também passa pelo envolvimento da sociedade colombiana e da comunidade internacional. Compreendendo isso, foi criada uma plataforma de interação pela internet, com o objetivo de colher contribuições para a estruturação dos pontos do Acordo Geral. Na outra ponta do processo, a mobilização social por toda a Colômbia é fundamental, tal como indicam as ações da Marcha Patriótica com o objetivo da manutenção da Mesa – dando combate aos setores oligárquicos que defendem a saída militar –, e ao mesmo tempo dispute os termos de um acordo de paz que responda às demandas sociais e políticas do povo.

Infelizmente os atores políticos e o governo brasileiro são apáticos a este processo. O peso político regional de nosso país exige uma incidência ativa nos esforços por uma solução pacífica e socialmente justa para a guerra na Colômbia. Caberá às organizações populares e setores comprometidos com a paz e os direitos humanos protagonizarem a solidariedade ao povo colombiano.

Frente ao ultimato do Presidente Santos para se encerrarem as negociações, as FARC-EP indicam um cessar-fogo unilateral para o próximo dia 20/07, e pretendem que o governo de Bogotá faça o mesmo. Tal iniciativa da guerrilha é fundamental para garantir a permanência da Mesa de Negociações, que hoje passa por um forte ataque dos setores abastados da sociedade colombiana, desejosos do conflito e dos lucros que extraem dele.

O apoio ao cessar-fogo fariano e a permanência da Mesa de Diálogo de Paz é o centro político da solidariedade ao povo colombiano. A paz socialmente justa é uma bandeira revolucionária.

Como ser de direita no Brasil em 10 lições

Por Pedro Otoni

Este é um resumo simplificado, organizado de maneira fácil, sobre tudo que você precisa saber para não se preocupar mais com as posições mais informadas do que a sua.

1°) É preciso ter álibi: “já fui de esquerda, porém…”, “me decepcionei com as práticas da esquerda, por isso…” etc.

2°) Leia Veja, IstoÉ … porém a leitura pode ser entediante, então recorra: Willian Waack e Alexandre Garcia para política, Carlos Alberto Sardenberg e Mirian Leitão para economia, assuntos aleatórios, e nunca a propósito, Diogo Mainardi. Acabamentos e melhorias no repertório, assine Globo News.

3°) Curtidas nas redes sociais são fundamentais.  Incremente seu argumento com deixas homofóbicas, machistas e racistas. Se questionado, use as palavras mágicas: liberdade de expressão. Caso seja processado, procure um advogado que tenha na sua sala de espera as revistas citadas na lição anterior, não será difícil. Você pode ser condenado mas ganhará um amigo.

4°) Opiniões sobre relações internacionais geram boa impressão. Então seja direto, confiante. “Cuba, Venezuela e Bolívia são ditaduras”. Mas tenha cuidado; exclua de sua “aula de geopolítica” aqueles países que estiverem em processo eleitoral, senão o argumento fica prejudicado, mas talvez você não se preocupe com isso.

5°) “O socialismo acabou, mas vivemos sob o risco da instalação do comunismo no Brasil”. Repita a frase várias vezes ao dia até se convencer. Se não der certo, refaça sob uso de psicotrópicos. Você pode até não se sugestionar, mas terá alucinações com perfil mais congruente.

6°) Seja patriota, defenda o fim da corrupção com a privatização da Petrobrás, a abertura da saúde para o capital estrangeiro, a isenção de impostos sobre importações e a adesão completa ao livre mercado.

7°) Você deve ser contra o Bolsa Família. Contra o Mais Médicos. Contra a impunidade e contra “os do contra”.

8°) A economia explica tudo. Faça sua análise: “O crescimento baixo é causado pelos altos impostos”. “É necessário reduzir impostos e ampliar o investimento”.  “O Brasil tem a carga tributária mais alta do mundo”. Suas soluções econômicas podem desconsiderar a lógica e os dados, porém serão muito bem aceitas se terminarem com “reduzir impostos”.

9°) Importante utilizar a história a seu favor. Use o argumento em diferentes versões:

– Casual: “Reformas é coisa dos comunistas”.

– Intelectual: “O agronegócio tornou a reforma agrária uma pauta obsoleta. A Reforma Urbana é obra de dirigentes políticos demagógicos defensores de restrição à propriedade privada. A reforma tributária viável é aquela que se destina a reduzir impostos, o contrário é populismo. A mídia é o pilar da democracia, qualquer controle é ataque à liberdade de expressão. A universidade deve ser livre, leve e solta para se tornar uma filial de grandes empresas, com muita PM no campus. As questões sociais são de responsabilidade da sociedade e não da universidade”.

– Hipster: “ Reformas de base são coisas de marxistas”.

10°) Conjuntura: A terceirização irá tornar o Brasil mais competitivo, independente da produtividade do trabalho. A redução da maioridade penal irá tornar a sociedade mais segura, independente das experiências internacionais provarem o contrário.  O voto no sistema de “distritão”® (by PMDB) irá aperfeiçoar a democracia no Brasil, independentemente de ser utilizado apenas no Afeganistão, país ocupado pelos EUA, sem partidos políticos e comandado por chefes locais (PMDB, certo?).

Utilize as lições desconsiderando as consequências sobre sua própria vida, isso pode tornar o ato de ser de direita menos doloroso.

Trajetórias de Bandung

por Paris Yeros

No mês de abril comemoramos os sessenta anos da Conferência de Bandung. Realizada em 1955, na Indonésia, a conferência reuniu pela primeira vez chefes de Estado do mundo afro-asiático recém-descolonizado, para fortalecer laços de amizade e definir estratégias de desenvolvimento pacífico. Cabe uma reflexão sobre este evento e as suas trajetórias.

Bandung foi um divisor de águas nas relações internacionais. Após meio milênio de dominação europeia, povos não europeus, ora soberanos, se reuniram de maneira autônoma para tomarem iniciativas próprias e estabelecerem novos princípios de conduta internacional. Nasceu em Bandung nada menos que um novo movimento civilizatório, anti-imperialista e antirracista, a partir das periferias.

Afirmou-se o princípio de autodeterminação nacional, exigiu-se a descolonização total e defendeu-se a resolução pacífica de disputas entre Estados. Também foi declarado o princípio de não alinhamento em relação ao imperialismo ocidental e à sua disputa nuclear com a União Soviética. Conforme a versão mais refinada, aceitou-se assistência econômica dos dois lados, mas evitou-se participação nos seus blocos militares. A estratégia juntou pragmatismo e idealismo, visando à sobrevivência dos novos Estados na Guerra Fria e à sua industrialização acelerada. Na maioria dos casos, a estratégia se submeteu à liderança das burguesias nacionais nascentes, embora não se excluíssem caminhos mais radicais como o maoísta.

O movimento alcançou as Américas pela adesão de Cuba e foi se tensionando pelas lutas armadas de libertação no Vietnã e na África. Ao longo desses anos, foi bem sucedido em levar a cabo a descolonização, com a exceção da Palestina. O seu nacionalismo econômico também estabeleceu um novo patamar de relações com os centros imperialistas. No entanto, o acirramento das contradições e a diferenciação do Terceiro Mundo pela emergência das semiperiferias ampliaram as fissuras do movimento frente ao imperialismo e seu militarismo. A decadência do movimento se deu em meio a crise da dívida do Terceiro Mundo e a queda do contrapeso soviético.

Porém, não foi esse o fim da história. As tendências orgânicas da emergência do Sul evoluíram, configurando trajetórias que hoje possibilitam um novo Bandung, embora cheio de novas contradições. A primeira trajetória consiste no avanço das semiperiferias e na formação do BRICS, sob a liderança chinesa. A sua força motriz não é uma nova mobilização popular e, sim, empresas monopolistas da própria semiperiferia. Trata-se de uma faca de dois gumes: o seu interesse básico é a ampliação do clube monopolista, porém chega a desafiar o monopólio financeiro estadunidense e, no caso da China e da Rússia, à nova onda militarista.

A segunda trajetória diz respeito ao nacionalismo anticolonial e antirracista, que vem recuperando a sua força na mobilização das classes populares, negras e indígenas. Do Zimbábue à Bolívia, as duas experiências mais avançadas hoje, está em curso uma mobilização mais profunda, com consciência histórica e sentido de solidariedade Sul-Sul. No Brasil, o novo movimento negro acarreta enorme potencial.

A terceira trajetória consiste justamente na difusão do espírito de Bandung às Américas, criando a possibilidade de se sustentar uma aliança tri-continental mais duradoura. Já houve certo afastamento da América do Sul da esfera de influência estadunidense. Mas os desafios permanecem. Além da diferenciação regional avançada, pesa o problema da negação do mundo não europeu nas Américas.