Querida esquerda, precisamos falar sobre nacionalismo

Querida esquerda brasileira,

chegamos em um ponto em que todos se dão conta que uma mudança em nossos rumos é necessária, mesmo que as alternativas sejam várias.

Vamos tocar num assunto que você não gosta de falar? Nacionalismo. Não faça careta, por favor. Não te incomoda esse monte de gente de verde e amarelo na rua, achando que é patriota? As mesmas pessoas que gritam aos quatro ventos que têm vergonha de ser brasileiro? Sim, incomoda. Mas vejamos, eles não são nossos verdadeiros inimigos. Sim, muitos ali são conservadores mesmo, mas tantos outros estão ali manipulados. E tomam como símbolo de sua manifestação aquilo que há de comum: são todos brasileiros.

O que me incomoda, e gostaria de dividir com você, é o fato de não utilizarmos os símbolos pátrios. Afinal, não somos também brasileiros? Não é sábio para um projeto político e social de massas, simplesmente deixar de graça para o inimigo uma ideologia que mexe com algo comum a todos, você não acha?

Sim, eu sei, a classe trabalhadora é internacional, Marx disse. Só que Marx também disse, no próprio Manifesto que “a luta do proletariado contra a burguesia, embora não seja na essência uma luta nacional, reveste-se dessa forma num primeiro momento”. Negar a nacionalidade e a influência que ela tem sobre as pessoas é querer negar a gravidade. Negar que o mundo está dividido em Estados-nação há séculos e achar que isso pode ser simplesmente jogado de lado é um erro colossal. Negar que é justamente a classe trabalhadora que carrega, nos seus genes, na sua produção diária e no seu patrimônio simbólico o ser brasileiro, é ser míope diante da realidade.

Numa rápida análise histórica, vemos que as revoluções socialistas ocorreram, na sua grande maioria, em países da periferia do sistema. Onde a causa da libertação nacional do colonialismo e do imperialismo sempre esteve presente. Alguém negará o caráter nacionalista de Revoluções como a Cubana ou a Chinesa? De que Chávez só fez o que fez, porque aliou um projeto nacional à revolução social?

Quando se fala em Nação, se fala em nome de todos. É um discurso legitimador, pois brasileiros somos todos nós. Para além de bandeiras, e paleta de cores, as pessoas são brasileiras porque se sentem brasileiras e esse patrimônio coletivo não pode ser negado por projetos de transformações sociais.

Querida esquerda brasileira, sei que você passa por momentos difíceis. Mas sejamos otimistas e trabalhemos. Nas horas de crise é que aparecem as mais criativas soluções. Acreditamos na transformação como princípio, não é mesmo? A única certeza é que “tudo que é sólido desmancha no ar”.

De quem sinceramente continua acreditando em você,

Roberto Santana Santos

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Quem te disse que a revolução é difícil, com certeza mentiu para você

Por Juliana Góes

Durante a minha vida eu tive a escolha de ser uma pessoa conformista, reformista ou revolucionária. A pessoa conformista é aquela que aceita, sem lutar contra, algo que a incomoda. Eu nasci mulher, preta, pobre. E por causa disso me deram um lugar na sociedade – o lugar de ficar calada, de apanhar calada, o lugar do corpo feito só para pegar, o lugar de mão-de-obra e carne mais barata do mercado. E muita gente acha que aceitar esse lugar é o mais fácil. Mas isso é mentira.

Se conformar, quando se vem de onde eu vim, é muito duro. É você ser explorada/o todos os dias. É ficar preocupado se tem o que comer, se tem como pagar o aluguel, se tem como vestir as crianças. É achar que não tem direito a ser amada. É odiar seu corpo. É ficar duas horas em um ônibus lotado, que nem lata de sardinha, em pé, para chegar no trabalho. E saber que será o mesmo esquema para voltar. E é saber que será assim para sua vida inteira.

Eu não ia sobreviver daquele jeito. Eu tinha que conseguir sair desse lugar social. Enfim, troquei o tempo em que as pessoas privilegiadas costumam ser crianças e cresci. Rapidamente entrei no mercado de trabalho e enfiei a cara nos estudos tentando criar minhas oportunidades. Mas o que me explora, não explora só a mim, e sim a toda coletividade que eu pertenço. Eu podia trabalhar 24 horas por dia, ainda seria explorada. Eu poderia até ganhar dinheiro, continuaria sendo chamada de macaca, continuaria vendendo minha mão-de-obra barata para que outro ficasse rico, continuaria com medo de ser estuprada. Sozinha é quase impossível sair desse lugar de opressão. Isso precisa ser feito coletivamente.

Assim, tentei reformar o sistema. Lutei pela educação, pela saúde, pela transferência de renda, pela democracia participativa. Imaginei que políticas públicas poderiam resolver os problemas estruturais da sociedade. Cheguei a ver alguns resultados, mas a gente não consegue atingir a todas e todos. E é muito difícil descobrir que um amigo seu está “desaparecido” (levado em camburão, morto por policiais). É muito difícil descobrir que sua prima sofreu racismo na escola e vê-la triste com isso. É muito difícil saber que várias crianças do seu bairro vão virar estatística, e morrer antes dos 21 anos. Ser reformista não é nada fácil. Eu descobri que não ia sobreviver assim.

Então, me tornei revolucionária. Desisti de tentar reformar o sistema e hoje luto para acabar completamente com o capitalismo e suas bases. E por isso, vejo que as lutas não podem ser tratadas separadamente. Como aprendi com a Audre Lorde e com o feminismo negro interseccional: “Eu não posso me dar ao luxo de lutar por uma forma de opressão apenas. Não posso me permitir acreditar que ser livre de intolerância é um direito de um grupo particular. E eu não posso tomar a liberdade de escolher entre as frontes nas quais devo batalhar contra essas forças de discriminação”. Isso porque luto por um mundo para todas e todos. Eu luto pelo comunismo.

E não vou dizer que é fácil. Tem seus altos e baixos. Mas com certeza, é muito mais fácil do que me conformar em ser explorada pela vida inteira ou lutar por reformas insuficientes. E quando vejo estudantes de SP preferindo ocuparem as escolas do que ficarem sem elas, ou as mulheres negras colocando a cara a tapa diante de fascistas armados na Esplanada ao invés de aguentarem o racismo caladas, tenho certeza disso. E se alguém te disse que a revolução era impossível, essa pessoa mentiu para você. Provavelmente para que você continuasse a viver como conformada/o. Mas não caia nesse papo. A revolução, ser revolucionária, sair do lugar de opressão é muito melhor do que permanecer nele.