Como ser de direita no Brasil em 10 lições

Por Pedro Otoni

Este é um resumo simplificado, organizado de maneira fácil, sobre tudo que você precisa saber para não se preocupar mais com as posições mais informadas do que a sua.

1°) É preciso ter álibi: “já fui de esquerda, porém…”, “me decepcionei com as práticas da esquerda, por isso…” etc.

2°) Leia Veja, IstoÉ … porém a leitura pode ser entediante, então recorra: Willian Waack e Alexandre Garcia para política, Carlos Alberto Sardenberg e Mirian Leitão para economia, assuntos aleatórios, e nunca a propósito, Diogo Mainardi. Acabamentos e melhorias no repertório, assine Globo News.

3°) Curtidas nas redes sociais são fundamentais.  Incremente seu argumento com deixas homofóbicas, machistas e racistas. Se questionado, use as palavras mágicas: liberdade de expressão. Caso seja processado, procure um advogado que tenha na sua sala de espera as revistas citadas na lição anterior, não será difícil. Você pode ser condenado mas ganhará um amigo.

4°) Opiniões sobre relações internacionais geram boa impressão. Então seja direto, confiante. “Cuba, Venezuela e Bolívia são ditaduras”. Mas tenha cuidado; exclua de sua “aula de geopolítica” aqueles países que estiverem em processo eleitoral, senão o argumento fica prejudicado, mas talvez você não se preocupe com isso.

5°) “O socialismo acabou, mas vivemos sob o risco da instalação do comunismo no Brasil”. Repita a frase várias vezes ao dia até se convencer. Se não der certo, refaça sob uso de psicotrópicos. Você pode até não se sugestionar, mas terá alucinações com perfil mais congruente.

6°) Seja patriota, defenda o fim da corrupção com a privatização da Petrobrás, a abertura da saúde para o capital estrangeiro, a isenção de impostos sobre importações e a adesão completa ao livre mercado.

7°) Você deve ser contra o Bolsa Família. Contra o Mais Médicos. Contra a impunidade e contra “os do contra”.

8°) A economia explica tudo. Faça sua análise: “O crescimento baixo é causado pelos altos impostos”. “É necessário reduzir impostos e ampliar o investimento”.  “O Brasil tem a carga tributária mais alta do mundo”. Suas soluções econômicas podem desconsiderar a lógica e os dados, porém serão muito bem aceitas se terminarem com “reduzir impostos”.

9°) Importante utilizar a história a seu favor. Use o argumento em diferentes versões:

– Casual: “Reformas é coisa dos comunistas”.

– Intelectual: “O agronegócio tornou a reforma agrária uma pauta obsoleta. A Reforma Urbana é obra de dirigentes políticos demagógicos defensores de restrição à propriedade privada. A reforma tributária viável é aquela que se destina a reduzir impostos, o contrário é populismo. A mídia é o pilar da democracia, qualquer controle é ataque à liberdade de expressão. A universidade deve ser livre, leve e solta para se tornar uma filial de grandes empresas, com muita PM no campus. As questões sociais são de responsabilidade da sociedade e não da universidade”.

– Hipster: “ Reformas de base são coisas de marxistas”.

10°) Conjuntura: A terceirização irá tornar o Brasil mais competitivo, independente da produtividade do trabalho. A redução da maioridade penal irá tornar a sociedade mais segura, independente das experiências internacionais provarem o contrário.  O voto no sistema de “distritão”® (by PMDB) irá aperfeiçoar a democracia no Brasil, independentemente de ser utilizado apenas no Afeganistão, país ocupado pelos EUA, sem partidos políticos e comandado por chefes locais (PMDB, certo?).

Utilize as lições desconsiderando as consequências sobre sua própria vida, isso pode tornar o ato de ser de direita menos doloroso.

Ajuste fiscal e luta social

Por Guilherme Boulos
(Conheça aqui nosso time de colunistas)

A política de ajuste fiscal já é a grande marca dos governos neste ano de 2015. Comandado por Dilma e Levy na esfera federal e seguido fielmente por governadores e prefeitos, o atual ajuste sinaliza para uma grande recessão na economia brasileira.

A receita é a mesma de sempre. A mesma que foi aplicada na década de 1990 por aqui e que anda sendo aplicada – com resultados dramáticos – na Europa desde 2008. Ajustar as contas em cima dos mais pobres, cortando investimentos públicos e atacando direitos sociais.

E parece estar apenas começando. As MPs 664 e 665, que dificultam o seguro-desemprego, o abono salarial e as pensões, são uma das facetas desse ajuste. Longe de ser a única, mas curiosa. Numa entrevista à Folha de São Paulo em 1 de setembro de 2014, no auge da campanha eleitoral, Armínio Fraga defendeu um ajuste baseado em cortes no seguro-desemprego e nas pensões. Seu candidato perdeu, mas sua receita parece ter vencido literalmente.

Junto a isso, a política de aumento de juros parece ser compulsiva no governo Dilma 2. Todo mês é 0,5% na Selic, agravando o comprometimento de recursos com  o pagamento da dívida pública e dificultando a recuperação da economia. Se juros altos gerassem crescimento, o Brasil teria crescido 10% ao ano com FHC.  Juros altos geram estagnação e desemprego.

Mas o ajuste não pára por aí. O corte de investimentos no Orçamento Federal pode ultrapassar R$100 bilhões, incluindo áreas “prioritárias”. A educação foi a primeira a ser ceifada, o Fies passou por dificuldades e o Minha Casa Minha Vida, programa vitrine do governo, permanece suspenso desde fins de 2014. A terceira etapa do programa – prevista inicialmente para ser lançada ainda em 2014 – permanece em fase de “estudos”.

O ajuste vem com força e a única forma de barrá-lo será com ampla mobilização social. Não dá pra apostar um real em que o Congresso barre as medidas. A oposição do PSDB às MPs é ridícula, principalmente vendo como os governadores tucanos – Beto Richa à frente – têm aplicado o ajuste e ataques aos direitos.

Para exigir a liberação imediata dos recursos para moradia popular, o MTST iniciou neste fim de semana uma jornada de ocupações. Foram duas na região metropolitana de São Paulo, que já envolvem mais de 2.500 famílias. Outras novas ocorrerão, tanto em São Paulo quanto em outros estados. Nossa resposta será com luta e ocupações.

Mas é preciso avançar na unidade do movimento social para obter vitórias. O dia 29 de maio será uma oportunidade de juntar paralisações nos locais de trabalho, organizadas pelo movimento sindical, com bloqueios de grandes vias pelo movimento popular e a juventude organizada.

No 15 de abril, a partir da luta contra a terceirização, conseguimos juntar um campo amplo e o resultado foi bastante positivo. Se esta mesma unidade se expressar no 29 de maio estaremos trilhando um bom caminho para resistir àqueles que querem jogar a conta da crise no colo dos trabalhadores mais pobres.

Existe luta além do tsunami conservador?

Por André Takahashi
(Conheça aqui nosso time de colunistas)

O quarto mandato do PT começou com um tsunami conservador que deixou os militantes de esquerda quase sem reação. Em praticamente todos os campos da vida os grupos de poder ligados à elite econômica iniciaram ataques que não conseguimos mensurar na sua totalidade. Grande parte dessa ofensiva foi alimentada pelo próprio PT que, ao assumir seu quarto mandato, passou a governar sob a agenda do candidato derrotado, aplicando medidas de ajuste que não correspondem aos anseios dos seus eleitores e de sua base social.

Tal opção, junto com uma política de comunicação desastrosa, ausência de trabalho de base e anos de contradição entre um governo que governa com a direita versus um partido que tem suas deliberações sempre deixadas para escanteio, enfraqueceu o PT como dínamo mobilizador capaz de resistir à ofensiva do novo congresso. Congresso este comandado pelo seu principal “aliado”, o PMDB, que se comporta mais como um exército mercenário, ou como um agente duplo, do que como aliado estratégico.

Atualmente, o partido e o governo encontram-se encurralados pelas investigações da Lava Jato e sob cerco cerrado da mídia hegemônica, que produz indignação seletiva promovendo os erros do PT e ocultando as maracutaias dos demais. Mais que propagar desinformação a mídia age como instrumento mobilizador, levando às ruas massas de pessoas desorganizadas que, na falta de um instrumento político adequado pela esquerda, encontram nos meios de comunicação o organizador de sua pauta e de sua ação. Para quem está de fora parece que o PT encontra-se sem estratégia, tratando apenas de sua própria sobrevivência diante dos ataques.

Com essa conjuntura, focada numa política institucional dominada por um consenso transversal conservador, quem paga o pato é o povo. Somos nós, os de baixo, que corremos o risco de sofrer os efeitos dos maiores retrocessos sociais das últimas décadas que, somados ao retrocesso ambiental patrocinado há anos por Dilma, nos dá um cenário de filme tragédia. Em meio ao bombardeio sem trégua a esquerda (governista e de oposição) tenta entender o que acontece e se reorganizar para a luta (ou para sobreviver). Fóruns, reuniões, encontros, chamados, manifestos, rachas e fusões acontecem em todo o Brasil.

Mas foi fora da institucionalidade, através da mobilização nas redes sociais e nas ruas, que tivemos nossa primeira vitória dentro do novo contexto: o recuo temporário do congresso na votação do PL 4330, o PL da terceirização que pode nos levar a era pré-Vargas. O protagonismo do MTST nessa batalha foi um indicador da importância do resgate imediato do trabalho de base; e o impacto nas redes sociais mostra o quanto a comunicação é estratégica para a resistência, especialmente na internet onde temos (por enquanto) um terreno menos monopolizado para dialogar com o povo. De imediato não vejo resposta correta de como agir para barrar o tsunami conservador, mas a médio e longo prazo o trabalho de base e as pautas de comunicação serão essenciais para virarmos o jogo.

PL 4330: de que lado está a CUT?

por David Gomes*, em colaboração especial para o Brasil em 5
(participe também enviando seus textos aqui)

Quando alguns setores da esquerda disseram que não havia cenário para um golpe no Brasil, nos referíamos ao que aconteceu essa semana. Não há nenhum motivo para os donos do poder no Brasil tirarem o PT do governo.

Ora, qual o sentido de tirar do governo um partido que indica um banqueiro para cuidar da macroeconomia, a senhora da motosserra de ouro para cuidar da Agricultura, que não tem força alguma para barrar os desmandos de Renan Calheiros e Eduardo Cunha? Um governo que entregou a articulação política ao Vice-Presidente Michel Temer, como um fazendeiro que deixa a raposa cuidando do galinheiro.

E isso tudo sob a justificativa de uma fantasiosa governabilidade que serviria exatamente para evitar que acontecesse tudo o que está acontecendo: uma série de cortes nos direitos trabalhistas e previdenciários, que fazem o país retroceder ao período anterior à Era Vargas.

Não, camaradas, a Dilma não vetará este PL. É muita arrogância ou desonestidade esperar algo de positivo do governo nesse sentido. Só quem pode pressionar o governo a ponto de a presidenta pensar em veto é a CUT. Mostra-se necessária uma resposta séria da CUT, uma resposta de verdade que ultrapasse notas oficiais e atos em Brasília. A única alternativa é uma greve geral, combativa e que aponte para um recado simples e direto para Dilma: ou veta ou abandonaremos o governo.

Sim, eu sei que vocês estão pensando: não parece coerente não esperar mais nada da Dilma, mas ainda esperar da CUT. Pois é, também não acredito na CUT, mas acho que há muito mais chances de eu errar na minha análise e acontecer uma resposta positiva da CUT, que do governo.

Os governistas dirão: mas nós estamos em Brasília pressionando, inclusive com militantes sendo agredidos. As bancadas de PT e PCdoB votaram contra, inclusive fomos os únicos junto com o PSOL.

Respondo: do que adianta isso tudo se não há sinal de rompimento com o PMDB, que é o grande causador disso tudo? Soa hipocrisia colocar a militância de base na rua, com a massa que o PT ainda agrega – mais que todos os outros partidos de esquerda juntos, diga-se – enquanto do outro lado, a cada dia que passa se dá mais e mais poder ao PMDB.

Além disso, enquanto a CUT e a base petista estavam se mobilizando para barrar o PL, o Ministro Levy sentava-se com Eduardo Cunha, em nome do governo, para negociar que o projeto não prejudicasse a arrecadação do governo e nem prejudicasse o patronato aumentando os seus impostos. Isto só reforça a tese de que o governo está disposto a passar por cima da classe trabalhadora para garantir o lucro dos empresários.

Dilma e o governo já escolheram um lado, resta a CUT escolher o dela. Ou fica do lado da classe trabalhadora, convoca uma greve geral e rompe com o governo, ou fica do lado dos patrões e se joga de vez na cova que ela mesma cavou em todos esses anos de defesa e adesão aos governos petistas.

*Estudante de História da UERJ (Universidade Estadual do Rio de Janeiro) e militante das Brigadas Populares.