Povo Sem Medo de lutar

Por Guilherme Boulos

Aqui esta el pueblo sin miedo!“, dizia uma grande faixa em meio à multidão de jovens e trabalhadores/as indignados/as durante as mobilizações do 15M (15/5/2011) em Madri. O Movimento dos Indignados – como ficou conhecida aquela incrível jornada – expressava a descrença e insatisfação da maioria do povo espanhol em relação ao sistema político e às medidas de austeridade aplicadas pelo governo.

8 de outubro de 2015, mais de 30 movimentos sociais brasileiros se unem para formar a Frente Povo Sem Medo, após um ano de intensas mobilizações de rua, numa conjuntura com muitos paralelos. Descrença no sistema político e insatisfação com medidas de austeridade também não faltam por aqui.

O aprofundamento da crise econômica parece ter dado fim ao processo de avanços pontuais sem reformas populares no Brasil. E a resposta oferecida pelo sistema político foi uma ofensiva contra a maioria. No caso do Governo Federal veio com o gosto amargo de um ajuste fiscal que corta investimentos, aumenta juros e ataca direitos. No caso do Congresso Nacional com uma agenda de retrocessos sociais, políticos e civis, que nos fazem recuar pra lá da Constituição de 1988.

É neste cenário de forte insatisfação com o governo, o Congresso e as instituições políticas, que surge a Frente Povo Sem Medo. Surge para apontar nas ruas saídas ao nosso impasse histórico, em que o “velho” dá sinais de esgotamento, mas o”novo” ainda não surgiu. Sem um amplo ciclo de mobilizações, protagonizado pelo povo da periferia, pela juventude rebelde e pelos/as trabalhadores/as organizados/as não sairemos deste atoleiro. É preciso tomar a iniciativa de construi-lo.

O Povo Sem Medo não aceita retrocessos venham de onde venham. Combate a política de austeridade aplicada pelo Governo Dilma com a mesma disposição que combate as medidas conservadoras do Congresso liderado por Eduardo Cunha. Propomos como saída para a crise a mobilização dos de baixo e um programa de reformas populares. Propomos que, pela primeira vez em nossa história, a conta seja paga pela minoria rica do 1%.

Por isso, o Povo Sem Medo combate também com firmeza a solução ilusória que Vladimir Safatle definiu certa vez como “Chamem o Dunga!“. Não se supera uma alternativa que chegou ao esgotamento andando para trás. As saídas oferecidas pela direita brasileira à crise atual significam mais perdas e ataques contra a maioria.

Em nome de tudo isso estaremos mobilizados/as. O Povo Sem Medo construirá sua primeira grande jornada no próximo dia 8 de novembro. Tomaremos ruas e praças de várias cidades pelo “Fora Cunha” e contra o ajuste fiscal. O Povo Sem Medo não aceita saídas à direita e nem pagar a conta da crise. Os ricos devem pagá-la. Defenderemos o aprofundamento da democracia contra este sistema político, aberto aos interesses econômicos e fechado aos interesses populares.

Todos/as às ruas em 8 de novembro! Somos Povo Sem Medo de lutar!

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A “unidade” e a “ideia de nação” abandonadas: impasses das esquerdas na história recente do Brasil

Por Bernardo Rocha Carvalho* – em colaboração especial para o Brasil em 5

Ao longo de mais de duas décadas de ditadura no Brasil (1964-1985) as esquerdas brasileiras foram perseguidas, divididas, sabotadas, torturadas e aniquiladas. Três décadas depois (1985-2015), ainda não nos recuperamos do trauma, e calcular os danos é tarefa difícil.

No entanto, basicamente, duas características importantes diferenciam as organizações e movimentos de esquerda de antes do golpe de 64, e de depois do regime militar: 1) antes do golpe, as esquerdas possuíam algum grau minimamente significativo de unidade entre si, convergindo especialmente em nível nacional; e 2) este grau de unidade se estabeleceu entre as esquerdas em torno de uma certa ideia de nação. Hoje, nota-se sem dificuldades que ao longo das últimas décadas estas características deixaram de existir no perfil das organizações e movimentos de esquerda no país.

Em busca de uma singela reconstrução do quadro histórico anterior a 64, há um exemplo um pouco longínquo, porém, bastante oportuno, se considerarmos a conjuntura brasileira atual. Trata-se da Campanha do Petróleo, iniciada em 1947, e que ficou conhecida pelo lema “O petróleo é nosso!”. Uma iniciativa profundamente nacionalista, que teve adesão dos mais diversos setores e atores da cena pública brasileira; muito bem assimilada, posteriormente, por Vargas, que em dezembro de 1951 apresentou ao parlamento o projeto de criação da Petróleo Brasileiro S.A. – a Petrobras. O monopólio estatal de um recurso tão estratégico geopoliticamente durou, então, até 1997, quando os princípios de soberania que motivaram a Campanha encontravam-se cada vez mais em desuso.

Mas o caso que mais nos interessa, na intenção de ressaltarmos a unidade das esquerdas brasileiras em torno de projetos concretos e de um sentido de nação, é a síntese de demandas históricas das esquerdas surgida no governo João Goulart (1961-1964), chamada de reformas de base. Apesar de sempre terem existido divergências sensíveis entre as organizações, movimentos e entidades de classe à esquerda (de estudantes, camponeses, trabalhadores urbanos, militares subalternos, etc.), o surgimento, em princípios de 1963, da Frente de Mobilização Popular (FMP), é bastante significativo – tendo reunido representantes de todos os setores mencionados acima, além de parlamentares de partidos desde o centro à esquerda mais radical.

O objetivo da Frente era de ser o sustentáculo político-popular para que Goulart avançasse seguramente na proposta das reformas, e serviu como um importante instrumento de pressão política e disputa de hegemonia. Entretanto, sua atuação não transcorreu – em nossa opinião – sem erros, e algumas posições da FMP foram assumidas dispensando-se, equivocadamente, um trabalho político-pedagógico mais sólido e prolongado entre a população.

Ainda assim, acreditamos na importância de se reler a consolidação da FMP como momento de criatividade das esquerdas brasileiras frente à fragmentação e ao sectarismo, e destacamos, com especial interesse, o aspecto de unidade em torno de discussões vivas a respeito de quais são os interesses da nação, e de como se conectam aos interesses do povo.

*Historiador pela UFSJ (Universidade Federal de São João Del Rei).

Que Frente queremos?

Por Guilherme Boulos

A ofensiva conservadora, a crise do governo petista com seu ajuste fiscal e a desarticulação da esquerda brasileira têm colocado em vários espaços o debate da construção de uma frente. Que é fundamental unificar a esquerda e retomar a mobilização popular ninguém duvida. Agora qual frente queremos?

Recentemente, o ex-presidente do PSB Roberto Amaral defendeu em artigo a criação de uma frente política e social para defender um programa democrático, de desenvolvimento econômico e soberania nacional.

Seu artigo não menciona o ajuste fiscal antipopular levado a cabo pelo governo Dilma, nem tece qualquer crítica aos governos petistas nos últimos 12 anos. Se queremos uma frente para unificar a esquerda, esses pontos não podem ser omitidos.

Frente para defender o governo, em nome da ofensiva da direita, ou para começar a articular um projeto eleitoral para 2018 não é o que a esquerda brasileira precisa. Uma frente como essa não teria nenhuma capacidade de dialogar com a insatisfação social nem oferecer saídas à esquerda para a crise atual.

Precisamos sim de uma frente que unifique o campo de esquerda no Brasil. Mas de uma frente focada nos movimentos sociais, não em manifestos e declarações de intenção, sem capacidade de mobilização popular. Nosso principal desafio hoje é reconstruir um ciclo de ascenso de luta de massas no país, capaz de alterar a relação de forças.

Alternativas políticas não se constroem “a frio”, apenas porque a conjuntura necessita delas. Se constroem no calor de mobilizações amplas. Assim foi o Podemos na Espanha, que partiu da mobilização de centenas de milhares nas ruas, os “indignados”. Assim, em outras circunstâncias, foi o MAS na Bolívia, alternativa política que nasce das heróicas mobilizações dos mineiros, dos cocaleiros e das mobilizações territoriais como a guerra do gás.

Assim, aliás, foi o Partido dos Trabalhadores no Brasil, na década de 1980. Seu impulso foram as grandes greves e o fortalecimento da luta popular naquele período, que produziu importantes instrumentos de luta dos trabalhadores.

A frente que precisamos hoje é social. Evidentemente deve construir um campo político, com intelectuais e partidos de esquerda. Mas seu foco deve ser a construção de amplas mobilizações populares.

Além disso, essa frente não pode estar atrelada ao governo. Ao contrário, deve buscar construir saídas pela esquerda à crise do governo petista, sem temer criticá-lo em seus rumos. Criticá-lo pela retomada de uma política econômica neoliberal e pela falta de disposição política em enfrentar as reformas populares tão necessárias ao Brasil. Com a mesma decisão com que deve enfrentar o avanço das pautas conservadoras no Congresso e na sociedade.

Na construção de uma frente, os movimentos sociais brasileiros devem se precaver de dois erros. O primeiro é, em nome da ofensiva da direita, abster-se de enfrentar as políticas deste governo. O outro é, em nome do enfrentamento ao governo, subestimar a ofensiva da direita.

Uma frente ampla e unitária da esquerda deve ter a capacidade de responder a estes dois grandes desafios, focando na retomada da mobilização social.

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