A Pachamamização¹ da Europa

Por André Luan Nunes Macedo* – em colaboração especial para o Brasil em 5, enviado como contraponto aos textos de Roberto Santana Santos aqui e aqui.

Referendos que buscam revogar o plano de austeridade grego. Mais à esquerda do mapa-mundi, infelizmente baseado na cartografia eurocêntrica, um partido-movimento na Espanha em pleno crescimento, que buscou suas raízes democráticas nos atuais processos políticos nacionais latino-americanos, como Bolívia, Venezuela e Equador[ii]. Termos como “Nova Maioria”, “luta contra as castas partidárias” e o resgate de uma democracia participativa na Grécia e na Espanha demonstram que o Socialismo do Século XXI construiu um Iluminismo às avessas, de sentido sul-periferias do norte, que hoje gera novas perspectivas de luta e de defesa dos direitos da classe trabalhadora no Velho Mundo.

Quase trezentos anos depois da Guilhotina e dos sans-cullotes, Robespierre, se vivo, estaria em choque. Seria bom se um médium pudesse entrar em contato com o jacobino. Sinto que, do ponto de vista metafísico, o espírito do líder fundador das esquerdas no mundo deve estar inquieto, transtornado com o potencial do antigo mundo colonial em influenciar com tanto impacto a Grécia e a Espanha.

A auditoria da dívida pública grega não tem uma matriz teórica fundada em Platão ou em Sócrates. Nem mesmo no bom e velho Marx. Tem uma experiência prática, de poucos anos de distância, na “nação das Bananas” de Rafael Correa. Após a auditoria da dívida equatoriana, reduzida, após uma análise minuciosa, em 70% do valor mentirosamente pago pelos governos oligárquicos anteriores, foi possível dar novos pulmões para a economia nacional, gerando maiores investimentos na área da saúde e educação. Hoje, no meio de uma região indígena, há um centro universitário, inspirado no Massachusetts Institute of Technology estadunidense[iii].

A Atenas grega[iv] do mundo terreno não é grega de fato. É uma brasileira que auxiliou os trabalhos da auditoria da dívida no Equador e agora ilumina a nação helênica, que possui um destino e um projeto nacional próprio, sem que tenha que dar satisfação para banqueiros franceses ou alemães. Palmas para a participação de Maria Lúcia Fatorelli, uma Ministra da Fazenda em potencial, um quadro político de nossa pátria que nos enche de orgulho, pela competência, dinamismo, articulação internacional e, acima de tudo, pela coragem. Aliás, uma coragem inteligente, que sabe exatamente o que é necessário para as maiorias de nosso país. Quem dera a Dilma tivesse ouvidos para escutá-la. Prefere um banqueiro do Bradesco para ditar os rumos de nosso país[v].

Tsipras disse em discurso recente que sem a Grécia, a Europa fica sem bússola[vi]. Sabe ele muito bem que a Rosa dos Ventos que orienta a democracia grega assume elementos advindos do bolivarianismo venezuelano, pautados em uma participação política direta das maiorias no rumo das decisões econômicas e sociais de seu povo.

Enfim, ao que me parece, Zeus foi trocado pela Pachamama. O Velho Mundo nos assiste com inspiração e deseja que demos respostas ainda mais ousadas de enfrentamento à Velha Ordem do Capital.  Espero que a próxima nação a se levantar e educar a Europa com um novo paradigma civilizatório seja a nossa. O brasileiro tem muito a ensinar. Como diria Darcy Ribeiro, somos a Nova Roma mestiça. Nosso povo possui cordialidade e dignidade de sobra para mostrar para o mundo como podemos construir a ideia do Novo Homem na atual conjuntura.

*André Luan é mestre em História pela Universidade Federal de São João Del Rei. Durante seu mestrado fez um estudo comparativo na área de ensino de História, com livros didáticos atuais do Brasil e Venezuela.

[i] Pachamama é a Deusa dos povos originários dos Andes, a Mãe-Terra. É a deusa que produz a fertilidade no mundo. Ver: https://pt.wikipedia.org/wiki/Pacha_Mama.

[ii] Recomendo assistir a entrevista de Pablo Iglesias, disponível no Youtube. Ver: https://www.youtube.com/watch?v=DODwZ2XJBTo.

[iii] Falamos da Universidade de Yachay, no Equador. Ver https://es.wikipedia.org/wiki/Yachay_(universidad).

[iv] Atenas é a Deusa da Guerra e da Justiça na mitologia grega.

[v] Maria Lucia Fatorelli apresenta seu relatório para o parlamento grego. Ver:  https://www.youtube.com/watch?t=21&v=pHt8QguIQNA.

[vi] http://www.sul21.com.br/jornal/grecia-o-discurso-historico-de-alexis-tsipras/.

Internacionalismo da direita

Por Pedro Otoni

A direita brasileira tenta de tudo. Ontem (18/06), desembarcaram em Caracas os senadores Aécio Neves, Aloysio Nunes, Cássio Cunha Lima do PSDB, Ronaldo Caiado (DEM), Sérgio Petecão (PSD) e José Medeiros (PPS) com a missão de prestar solidariedade aos golpistas venezuelanos. Interessante como o país vizinho tornou-se, “de repente”, foco da atenção de pessoas que somente se interessavam por viagem turísticas para a badalada e brega Miami; na América Latina, apenas rodadas de negócios suspeitas, em Cartagena.

Por que a oposição conservadora no Senado se tornou internacionalista?

Os senadores da oposição conservadora encontraram-se em um momento de invisibilidade. Para os objetivos da direita, a Câmara dos Deputados produz maior rendimento, sendo atualmente o principal cenário de atuação de seus atores políticos.  O Senado, antes tão prestigiado pela grande mídia, perdeu o holofote e microfone para o presidente da Câmara Eduardo Cunha (PMDB). Aécio Neves, compreendendo, acertadamente, que se não dialogar com a mídia terá um futuro ainda pior que o presente, escolheu um alvo de consenso das organizações Globo e adjacências: o governo bolivariano da Venezuela.

Assim surge a “comovente” empreitada de solidariedade internacional da direita brasileira. Apoiar a oposição de Maduro, aparecer para o mundo (ou para Washington) como paladinos da democracia, ter assunto para tuitar, história para contar, tirar selfie dentro de van em Caracas parada no engarrafamento e “pagar” de perseguidos por manifestantes “rojos”, etc.

Quem a direita brasileira foi visitar?

Leopoldo López é um personagem da ultradireita venezuelana que desde a tentativa de golpe contra Hugo Chávez, há 13 anos, vem se destacando pelo fundamentalismo antibolivariano. Como indica Miguel do Rosário, Lopez foi signatário do decreto golpista que dissolveu por algumas horas as instituições democráticas na Venezuela em 2002 (*). Desde então, é um líder da “linha dura” da oposição, diretamente envolvido em ações de sabotagem, atentado contra a vida de militantes chavistas (é investigado por responsabilidade na morte de 46 pessoas), mas sobretudo é um provocador da violência, do golpe e da intolerância.

López é a típica liderança de direita latino-americana: brutal, demagógico e avalizado pelos EUA. Enfim, alguém que Aécio Neves se identifica para além das manobras políticas paroquiais. Pode até ser que o senador mineiro o admire, cultive alguma empatia, curta as mesmas viagens, ou até mesmo tome para si alguma lição de Lopez, nunca se sabe.

O resultado…

Os oito cavalheiros retornaram ao Brasil sem encontrar-se com Lopez (que pena!). Segundo eles, foram impedidos pela ação de manifestantes “rojos”. Porém, o que queriam mesmo é “brilhar”, ser assunto, superar a condição de subcelebridade política, ofuscados pelo pop-star da “direitona”, Eduardo Cunha. Sim, pelo menos foram notícia. Inclusive aqui no Brasilem5.org, tiveram seus 5 minutos de exposição.  Porém, esta coisa de internacionalismo dá trabalho e nossos senadores tem outros negócios a fazer: fazendas em Goiás, aeroportos em Minas, investimentos na especulação imobiliária, entre tantas outras atividades. Enfim, quem disse que os senadores não trabalham?

Aécio Neves

Notas:

* No documentário de Kim Bartley e Donnacha O’Briain sobre o golpe ocorrido na Venezuela em abril de 2002, intitulado “A revolução não será televisionada”, no trecho entre os 46 e 48 minutos, é lido na integra o conteúdo do decreto mencionado.

Chega de Eurocentrismo na Esquerda Brasileira!

Por Roberto Santana Santos* – em colaboração especial para o Brasil em 5 (participe também enviando seus textos aqui)

A esquerda brasileira sempre padeceu de diversos problemas. O maior deles é o eurocentrismo, que na verdade é parte de algo maior, a saber, o desconhecimento da nossa própria realidade latino-americana e brasileira. Infelizmente, alguns camaradas não aprendem com os erros da história.

Nos últimos meses escuto de maneira atordoada frases parecidas com essa: “agora a coisa está mudando, a esquerda voltou, graças ao Podemos na Espanha e o Syriza na Grécia”. Por favor, parem. Apenas parem. Façam aquilo que um marxista faz de melhor (ou deveria): análise de conjuntura.

Vivemos ainda sob a hegemonia do neoliberalismo, mesmo que seja hoje uma hegemonia contestada. Uma hegemonia combalida, porém não derrotada. Onde surgiram as reações mais avançadas e populares aos “ajustes neoliberais”? Na região do mundo onde os tais ajustes foram aplicados de maneira mais selvagem e ortodoxa, nossa América Latina. Mais do que isso, rebeliões populares se traduziram a médio/curto prazo em avanços organizacionais capazes de disputar e chegar ao poder.

O Caracazo de 1989 na Venezuela iniciou o processo que culminaria em Hugo Chávez como produto das lutas do povo daquele país. Assistimos há dezessete anos a Revolução Bolivariana triunfar, hegemonizar a política venezuelana, construir novas formas de se pensar o socialismo (adaptado ao nosso tempo histórico e à nossa latino-americanidade) e inclusive sobreviver à desaparição física de sua liderança, mantendo o processo frente a todos os desesperados ataques do Império.

A “Guerra da Água” (2000) na Bolívia, realizada por movimentos sociais contra a privatização desse recurso vital, levou à criação do MAS (Movimento ao Socialismo) que chegou ao poder com Evo Morales. Processo semelhante criou a Alianza País de Rafael Correa no Equador. Essas e outras forças minimamente progressistas da região tocam um sem número de projetos de integração regional de forma soberana e a margem dos interesses norte-americanos. Somam-se outras forças de esquerda nessa conjuntura que não chegaram ao poder, mas ganharam fôlego devido às mudanças perpetradas nos últimos tempos.

A resposta ao neoliberalismo e o renascimento do socialismo no século XXI (dado como morto pelo pensamento conservador após o fim da União Soviética), é produto da organização e originalidade latino-americana. Por acaso os atuais processos na Grécia e na Espanha são mais avançados que o da Venezuela? O governo do Syriza é melhor que o do Equador? Aléxis Tsípras e Pablo Iglesias são intelectuais capazes de desenhar um socialismo com mistura de relações produtivas como cooperativas, estatais e comunitário-indígenas como Álvaro Linera (vice de Morales na Bolívia)? Essas forças europeias têm um projeto de integração regional alternativo ao grande capital e balizado por um pensamento como o bolivariano?

Não se trata aqui de diminuir ou glorificar. O que ocorre hoje na Grécia e na Espanha merece toda a nossa solidariedade e apoio. Trata-se da nossa esquerda desconhecer seus povos e a si mesma. Somos originais e originais devem ser nossas respostas revolucionárias. Nossas burguesias e boa parte de nossa classe média vivem na “síndrome do vira-lata”. Uma esquerda popular não, não pode cometer tamanho erro. O século XXI não perdoará outra vacilação da esquerda latino-americana. “Ou inventamos, ou erramos”.

*Roberto Santana Santos é historiador e professor de história. Doutorando em políticas públicas pela UERJ. Membro da Coordenação Política Nacional das Brigadas Populares. Autor do livro “Coronéis e empresários: da esperança da transição democrática à catástrofe neoliberal (1985-2002)” (ver aqui).

“Elegeu, tem que engolir!” O acordo petucano sobre o impeachment.

Por Vitor Hugo Tonin* – em colaboração especial para o Brasil em 5 (participe também enviando seus textos aqui)

O governo tucano de FHC deixou um legado de quatro derrotas nacionais consecutivas para seu partido. O desgaste é tal, que mesmo com a atual crise do seu aparente opositor (PT), o PSDB não consegue se apresentar como alternativa à insatisfação popular existente. Ainda assim, Cardoso foi o primeiro a afastar a ideia de um impeachment contra atual presidenta. O sumo pontífice do petucanismo sabe que não adianta tirá-la do poder sem hegemonia. Seria um caos, para eles. E vai que o povo gosta dessa história e começa a querer outro, e outro…até não sobrar ninguém?

Mas o PSDB foi bem recompensado. O tucano Beto Richa, versão sulista de Aécio Neves, surpreendeu o Brasil ao “controlar” manifestações dos professores com pitubulls e bombas voadoras (sim, elas eram atiradas de cima dos helicópteros) para tentar abocanhar as aposentadorias do funcionalismo público e outros direitos dos trabalhadores e do povo paranaense. E isso tudo para preencher o buraco fiscal deixado por ele mesmo!  No Paraná, nos  últimos dias, caíram três figuras do alto escalão. Há uma profunda crise de legitimidade. A insastisfação popular é gigantesca e, assim como Rousseff, Richa foi eleito sem apresentar o verdadeiro programa que está implantando. Mesmo assim, todas as lideranças da oposição paranaense se pronunciaram contra qualquer hipótese de impeachment.

Essa sagrada aliança em torno da estabilidade do mandato, mesmo diante de flagrantes estelionatos eleitorais, não é nova. Em 1999, o estouro da crise cambial logo após a reeleição (comprada pelo mensalão tucano) de FHC também trouxe este debate nas fileiras petistas. Lula e Dirceu salvaram FHC.  O que FHC em 1999, Dilma e Beto Richa tem em comum é que seus mandatos impopulares estão sustentados formalmente, pela lei, e não mais pela vontade popular. Não se trata, portanto, de um tema jurídico, pois não é isto que está em jogo. Afinal, Collor foi impedido, mas depois absolvido de todas as acusações. Ora, se era inocente porque ele caiu? Justamente porque o recurso jurídico é na verdade um recurso político. Portanto, não venham com balela. Ninguém quer o impeachment porque se gritar “pega ladrão” não fica um!

No atual sistema eleitoral as campanhas são propagandas publicitárias e os candidatos uma mercadoria muito cara, mas muito vagabunda. Tão vagabunda que não duram nem alguns meses e já caem na insatisfação popular. Os verdadeiros acordos e interesses políticos são realizados em gabinetes fechados com os financiadores de campanha, tal como tem sido exposto nas investigações da Petrobrás. Eles não aparecem na TV! O problema do caixa dois, portanto, também não é jurídico.  Seu verdadeiro crime é  político. A mentira contábil do caixa 2 é a forma com que se ocultam os verdadeiros interesses políticos dos candidatos.

Isso ocorre porque os consumidores, neste caso, nós, o povo, não temos direito à devolução. Ao contrário, a garantia é do vendedor! Vendem-nos uma mercadoria vagabunda com a garantia de que teremos que aturá-la por quatro anos. Mas isso poderia ser diferente.

Na Venezuela, com uma coleta de assinaturas o povo pode convocar um referendo para julgar o eleito na metade do mandato. A oposição fez isso para remover Chávez do poder em 2004, mas perdeu a eleição.

A refundação da república brasileira que haverá de sobressair, mais cedo ou mais tarde, da atual crise política, terá que aproximar a fonte do poder (o povo) dos seus representantes (os eleitos) o máximo possível.   Candidato caô terá vida curta!

*Vitor Hugo Tonin é Doutorando em Desenvolvimento Econômico na Unicamp.